A eleição acabou no dia 25, mas a conta chegou depois. E chegou, curiosamente, pela porta do RH. Se você achava que o pós-eleição seria só de ministério, articulação e cargo, a semana mostrou outra coisa: o voto virou problema trabalhista.
O voto não pode custar o emprego
Comecemos pelo que ficou de mais grave. Horas depois da reeleição de Lula, uma vereadora de Londrina, eleita deputada estadual pelo PL, escreveu no X: "Demita o mal", pedindo que patrões demitissem empregados petistas. O post passou de 31 mil curtidas e, como lembra o especial do Você Viu Isso?, virou alvo do Ministério Público do Trabalho. O mesmo especial faz questão de dizer o óbvio que precisa ser dito: bolsonarismo não é nazismo, e aqui é um post, não uma lei do Estado. Concordo. Mas a lei brasileira proíbe exatamente o que o post pede, e isso basta para a gente não tratar o caso como mera "opinião".
O sistema reagiu rápido. O MPT acionou a Meta e pede R$ 50 milhões por danos morais coletivos; a Justiça do Trabalho de São Paulo já mandou apagar os conteúdos em 24 horas e exibir avisos contra o assédio eleitoral. Já o advogado-geral da União, Jorge Messias, anunciou ações judiciais da AGU. O Ministério do Trabalho recebeu 4.305 denúncias em três dias, 268 delas no Paraná.
Leia de novo: 268 denúncias no nosso estado. Não é número de Brasília, é de Londrina, Maringá, Cascavel. É gente que trabalha em loja, em fábrica, em escritório, e que passou a semana com medo do chefe. Quem defende o Estado mínimo costuma esquecer que o trabalhador, sozinho diante do patrão, não tem nada de mínimo para perder.
Uma ressalva de colunista que cobra quem pensa igual: denúncia não é condenação. Todos os casos estão em análise pela Auditoria Fiscal do Trabalho, e é bom que fiquem lá, com rito e contraditório. O governo acerta ao agir, mas errará se transformar o tema em vitrine. O que o trabalhador quer é proteção que funcione na segunda-feira, não nota de repúdio.
Miami, passaportes e a pose de líder
Enquanto isso, o derrotado escolheu outro roteiro. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) saiu do país, passou por Argentina e Equador e chegou à Flórida. Em live no Instagram, disse ser vítima de "perseguição" e falou em "regime de exceção". Segundo a matéria, ele contou que a Polícia Federal avisou que seus passaportes seriam apreendidos, no âmbito de uma investigação por lavagem de dinheiro. E há uma ação popular no Rio pedindo a suspensão de seu salário por suposto abandono do mandato.
Não cabe a esta coluna julgar a investigação, que segue seu curso. Cabe notar o contraste de estilo. Dias antes, ele se apresentava em carta como "líder" do Brasil. Líder que fala de longe, a partir de outro país, em transmissão de rede social, é um tipo de liderança que a oposição ainda vai precisar explicar à própria base. Bastidor é isto: o discurso de "regime de exceção" soa bem para o convertido, mas um senador que deixa o posto pesa na articulação do partido.
E note o fio que liga as duas pontas da semana. De um lado, a pressão no chão de fábrica. De outro, o grito de perseguição no alto. Em ambos, o adversário vira inimigo. Quando o outro deixa de ser adversário e vira "o mal", a democracia perde o ar.
O espelho americano
Lá fora, o recado veio pelas urnas. Os democratas retomaram Câmara e Senado nas eleições de meio de mandato, venceram até no Texas e no Kansas, e Trump reconheceu o resultado, acenando com vetos. Aqui vale a lição: a polarização não é destino. Eleitor cansa, e o recado de uma urna é sempre mais forte que o de mil lives.
Fico de olho agora na PEC que reduz a maioridade penal para 16 anos em crimes hediondos, com acordo entre PT e PL. Quando governo e oposição se abraçam tão rápido, desconfie da pressa. Tema dessa gravidade pede debate, não calendário especial.
A aposta para a próxima semana: o governo vai ter de provar que sabe punir o assédio eleitoral sem virar caça às bruxas, e a oposição, que sabe perder sem fugir. Qual dos dois desafios é mais difícil? Eu já tenho palpite.
A coluna Bastidores do Poder sai todo domingo na seção Política do Você Viu Isso?. É opinião: os fatos estão nas matérias citadas.







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