Quem anda pelo Paraná sabe: aqui o tempo não pede licença. Na quinta passada, o Inmet já falava em tempestade. No sábado, 212 municípios estavam sob alerta amarelo, com risco de 30 mm em uma hora, granizo e vento de uns 60 km/h. Ninguém pode dizer que não foi avisado. Então vale perguntar o que fizemos com o aviso.

Maringá acordou sem telhado

Na madrugada de segunda-feira, Finados, o temporal chegou a Maringá. O Simepar registrou rajadas de 81 km/h às 3h30, e os bombeiros falam em ventos próximos de 100 km/h. Árvores no chão, ruas bloqueadas, mais de 80 mil imóveis sem energia. O símbolo da noite foi o quartel do Corpo de Bombeiros, que perdeu o telhado: a estrutura metálica foi arrancada e jogada sobre o pátio. Quem socorre ficou sem abrigo, e bombeiros de outras cidades tiveram de ajudar.

O prefeito Silvio Barros decretou calamidade pública para agilizar a resposta. Decreto serve para isso mesmo, e acho o gesto correto. Mas fico de olho no que vem depois. Calamidade não pode ser só papel que destrava compra emergencial. Precisa de balanço transparente do que se perdeu, do que se gastou e de quem ficou sem luz por quanto tempo. A Defesa Civil ainda não tinha divulgado números quando a matéria saiu, e é isso que você deve cobrar.

O que ninguém está dizendo é que o susto de Maringá não é exceção. Ele é o padrão. O Simepar diz que novembro terá chuva acima da média em todas as regiões, com o El Niño empurrando frentes frias e instabilidade. O mês mal começou. E ontem o Inmet pôs 78 cidades da faixa sul em alerta vermelho, o mais grave da escala, com risco de vento acima de 100 km/h por causa de um ciclone extratropical. Os temporais seguem hoje. Poda de árvore, rede elétrica enterrada ou protegida, quartel e escola com estrutura firme não se resolvem na véspera.

Vento, telhado e as vidas que ficam no meio

Teve dor demais nesta semana para tratar clima como assunto de guarda-chuva. Em Palmeira, nos Campos Gerais, quatro pessoas morreram na BR-277, entre elas um menino de 7 anos. Os bombeiros dizem que não chovia na hora, mas a pista estava úmida pelas chuvas da madrugada. A PRF ainda apura a circunstância exata, e não cabe a mim bancar o perito. Só deixo o recado de que estrada molhada pede mais cuidado, ultrapassagem pede mais cuidado ainda, e a família inteira de um carro não devia sair de uma batida em uma manhã de feriado.

E há o caso do reitor da PUC-PR, Irmão Rogério Renato Mateucci, de 55 anos. Ele morreu no Arizona, atingido por um objeto arrancado de um telhado pelo vento. A polícia local trata como acidente ligado ao clima. A missa de exéquias é hoje, às 9h30. Cito o caso não para fazer paralelo forçado, mas porque ele lembra que vento forte mata sem endereço certo. Telhado mal preso é perigo público, aqui ou lá.

E a gestão, em Londrina?

Trago o assunto para casa, porque aqui também se discute gestão. O Londrina perdeu por 3 a 1 para o América-MG no VGD, já rebaixado à Série C, e a torcida foi de camisa preta e faixa protestar contra a gestão da SAF. Parece outro universo, mas o princípio é o mesmo. Quando o sinal amarelo acende e ninguém age, o vermelho chega. A torcida avisou, e o Tubarão caiu do mesmo jeito.

Não sou contra quem governa, seja prefeitura, clube ou concessionária de energia. Sou contra o improviso que se repete. Quando o decreto de Maringá sair do noticiário, vou perguntar quanto do dinheiro e do esforço foi para prevenção. Aposto que o próximo temporal do El Niño vai testar de novo cada telhado do estado. A pergunta que fica para você é simples: o seu bairro está pronto para a próxima ventania, ou vai esperar o alerta virar vermelho?

A coluna Café com Pinhão sai todo domingo na seção Paraná do Você Viu Isso?. É opinião: os fatos estão nas matérias citadas.