Especial O ovo da serpente: a foto do boicote nazista de 1933 ao lado do post Demita de 2026● ESPECIAL INTERATIVORole a linha do tempo e toque nos sinais do fascismoGoebbels × Alvim, os símbolos, a polícia que mata (e a que morre), os campos e 17 paradas de 1999 a 2026, cada uma com imagem.Abrir o especial →

Em 1º de abril de 1933, dois meses depois de Hitler chegar ao poder, homens da SA ficaram na porta das lojas judaicas da Alemanha com cartazes: "Alemães! Defendam-se! Não comprem de judeus!". Seis dias depois, uma lei tirou do serviço público os judeus e também os "politicamente não confiáveis": comunistas e social-democratas. A perseguição que terminaria nos campos de extermínio começou pelo bolso.

Em 25 de outubro de 2026, horas depois da reeleição de Lula, uma vereadora de Londrina eleita deputada estadual pelo PL escreveu no X: "Você tem uma empregada que é petista? DEMITA! Tem um funcionário que é petista? DEMITA! [...] Demita o mal." O post passou de 31 mil curtidas e virou alvo do Ministério Público do Trabalho (leia a matéria).

Não é a mesma coisa. Lá era lei do Estado; aqui é um post, e a lei brasileira proíbe o que ele pede. Bolsonarismo não é nazismo: não há partido único, nem campos, nem leis raciais. Mas o título deste especial vem do filme de Ingmar Bergman sobre a Berlim dos anos 1920: pela casca fina do ovo, já dá para ver a serpente formada. E a casca, no Brasil, vem sendo afinada há 27 anos.

A trilha

  • 1999: na TV Bandeirantes, o então deputado diz que o país só mudaria "matando uns 30 mil" e que o presidente Fernando Henrique deveria ser fuzilado.
  • 2004: uma carta assinada por Bolsonaro aparece em pelo menos três sites neonazistas brasileiros, com foto e banner para o site dele. Quem achou foi a antropóloga Adriana Dias, da Unicamp; o Intercept Brasil revelou em 2021.
  • 2016: no impeachment, dedica o voto ao coronel Brilhante Ustra, reconhecido pela Justiça como torturador.
  • 2018: no Acre, empunha um tripé como fuzil: "vamos fuzilar a petralhada".
  • 2019: em Israel, depois do Museu do Holocausto, afirma que "não há dúvida" de que o nazismo era de esquerda; dias depois, diz que o Holocausto pode ser "perdoado". O presidente israelense responde: "Nunca perdoaremos".
  • 2020: o secretário da Cultura, Roberto Alvim, copia um discurso de Goebbels em vídeo oficial, com Wagner ao fundo. É demitido no dia seguinte.
  • 2021: o assessor Filipe Martins faz no Senado um gesto associado a supremacistas brancos (ele nega; foi condenado pela Justiça Federal e, em dezembro de 2025, a 21 anos de prisão pelo STF na trama golpista). Em julho, Bolsonaro recebe fora da agenda a alemã Beatrix von Storch, do AfD, neta do ministro das Finanças de Hitler. E Adriana Dias registra o salto das células neonazistas no Brasil: de 75 em 2015 para 530 em 2021.
  • 2022: "Deus, pátria e família" vira lema de campanha. É o lema da Ação Integralista Brasileira, o fascismo brasileiro dos anos 1930.
  • 2023 a 2025: o 8 de janeiro, a inelegibilidade decretada pelo TSE e a condenação no STF a 27 anos e 3 meses por tentativa de golpe.
  • 2026: o "demita o mal".

O dia em que o governo copiou Goebbels

Joseph Goebbels, ministro da propaganda de Hitler, discursando com o braço erguido
Goebbels em 1933. Foto: Georg Pahl/Bundesarchiv, Bild 102-17049 (CC BY-SA 3.0 DE)

Em janeiro de 2020, o secretário especial da Cultura, Roberto Alvim, anunciou um prêmio de artes em vídeo oficial, com a ópera Lohengrin, de Wagner, a preferida de Hitler, ao fundo. O texto era quase o de Joseph Goebbels a diretores de teatro em 1933.

Goebbels: "A arte alemã da próxima década será heroica, será ferreamente romântica, será objetiva e livre de sentimentalismo, será nacional com grande páthos e igualmente imperativa e vinculante, ou então não será nada."

Alvim: "A arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional, será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional e será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes de nosso povo, ou então não será nada."

Ele falou em "coincidência retórica" e caiu no dia seguinte.

Os símbolos

O gesto no Senado (2021): atrás do presidente do Senado, ao vivo, o assessor internacional Filipe Martins une polegar e indicador com três dedos esticados, o "WP" de white power usado por supremacistas. Disse que ajeitava a lapela; foi condenado pela Justiça Federal. O copo de leite (2020): numa live, Bolsonaro e aliados tomam leite em silêncio. Nos EUA, o copo virou senha de supremacistas brancos; o Planalto disse que era homenagem aos produtores de leite. "Deus, pátria e família": lema dos camisas-verdes de Plínio Salgado nos anos 1930, slogan da campanha de 2022.

"Bandido bom é bandido morto"

Todo fascismo precisou de quem matasse fora da lei e de quem aplaudisse. Em 2003, na tribuna da Câmara, Bolsonaro disse sobre matadores que agiam na Bahia: "Enquanto o Estado não tiver coragem de adotar a pena de morte, esses grupos de extermínio, no meu entender, são muito bem-vindos." Em 2005, defendeu o PM Adriano da Nóbrega, condenado por homicídio e condecorado por Flávio com a Medalha Tiradentes, depois apontado como chefe do Escritório do Crime, grupo de matadores de aluguel das milícias do Rio. Presidente, em 2019, defendeu licença para policiais matarem: "Esses caras vão morrer na rua igual barata, pô. E tem que ser assim."

A polícia que mata, e a polícia que morre

Blindado da polícia do Rio diante de barricada em chamas na Operação Contenção
Operação Contenção, Rio, outubro de 2025. Foto: CanalGov (CC BY 3.0)

Em fevereiro de 1933, três semanas depois da posse de Hitler, Hermann Göring mandou a polícia da Prússia atirar "sem hesitação" contra os "inimigos do Estado" e prometeu proteger quem atirasse. A licença para matar veio antes dos campos. No Brasil, ela atende por excludente de ilicitude.

Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, as polícias mataram 6.602 pessoas em 2025, recorde histórico: 18 por dia, 82% delas negras. Só a Operação Contenção, no Rio de Cláudio Castro (PL), deixou 121 mortos em outubro de 2025. E quem aperta o gatilho também adoece: o suicídio é a principal causa de morte de policiais no país, com 110 casos em 2025, mais do que os mortos em confronto.

A crítica vale para todos. A Bahia, governada pelo PT desde 2007, tem a polícia que mais mata no Brasil em números absolutos: 1.570 mortes em 2025, mais de quatro por dia. Ser progressista no discurso não basta. Acabar com a polícia que mata precisa ser uma das principais bandeiras do quarto governo Lula: câmera na farda, investigação independente de toda morte, verba federal ligada à redução da letalidade e cuidado com a saúde mental do policial.

Os sinais que Umberto Eco listou

Em 1995, o escritor italiano Umberto Eco, que cresceu sob Mussolini, descreveu 14 traços do "fascismo eterno" e avisou que basta um deles para o fascismo começar a se formar. Vários aparecem no bolsonarismo: o culto da tradição ("Deus, pátria e família"); a ideia de que discordar é trair (o eleitor do outro lado vira "o mal"); o medo do diferente; a obsessão por conspirações, como a fraude nas urnas que nunca foi provada; a vida como guerra; o desprezo pelos fracos ("não sou coveiro", na pandemia); o machismo; e um "povo" que só inclui quem concorda ("as minorias têm que se curvar para as maiorias"). No especial interativo, cada sinal tem o exemplo.

Onde isso terminou da última vez

O portão de Auschwitz com a inscrição Arbeit macht frei
Auschwitz. Foto: Tulio Bertorini (CC BY-SA 2.0)

O primeiro campo nazista, Dachau, abriu 53 dias depois da posse de Hitler, para presos políticos: comunistas e social-democratas. Doze anos depois, o nazismo tinha matado 6 milhões de judeus, cerca de 3 milhões de prisioneiros de guerra soviéticos, até 500 mil ciganos, 250 mil pessoas com deficiência, além de homossexuais, testemunhas de Jeová e opositores (estimativas do Museu Memorial do Holocausto dos EUA). As fotos da libertação dos campos estão no especial.

Crianças sobreviventes de Auschwitz, de uniforme listrado, atrás do arame farpado
Crianças sobreviventes de Auschwitz, janeiro de 1945. Foto: Exército Vermelho (domínio público)

A fúria das redes: doença ou método?

O "demita" saiu de rompante, no calor de uma derrota, e muita gente se perguntou se há descontrole por trás de posts assim. A psiquiatria descreve um quadro de explosões de raiva recorrentes, impulsivas e desproporcionais ao gatilho: o Transtorno Explosivo Intermitente (TEI), do manual DSM-5. E há quem aponte as redes sociais como catalisador desse comportamento, por três caminhos.

A fúria por escrito: o imediatismo e a falsa sensação de anonimato fazem a raiva sair em texto, sem filtro, em forma de insulto, ordem e linchamento virtual. A intolerância absoluta a discordar: a simples existência de quem pensa diferente vira gatilho para uma resposta imediata e hostil, sem medir o efeito sobre a vida de ninguém. O algoritmo da indignação: as plataformas premiam o que dá raiva. Um estudo da Universidade Yale publicado na Science Advances em 2021 mostrou que posts com indignação moral ganham mais curtidas e compartilhamentos, e que quem é recompensado passa a escrever com ainda mais indignação. O sistema nervoso fica em alerta permanente.

Cuidado com o diagnóstico. Transtorno mental só se diagnostica em consulta, por médico, nunca por um post. Chamar de doença o ódio político estigmatiza milhões de brasileiros que vivem com transtornos e não fazem mal a ninguém, e ainda dá desculpa a quem escolheu o que disse. O "demita o mal" teve 31 mil curtidas: não é um surto isolado, é um público que aplaude. O bolsonarismo fez da raiva um método. Um mandato exige o oposto: equilíbrio para representar também quem não votou em você.

O que diz a lei

A Constituição garante a liberdade de consciência e de convicção política. A Convenção 111 da OIT, ratificada pelo Brasil, proíbe discriminar no emprego por opinião política. A Lei 9.029/1995 veda prática discriminatória para contratar ou manter alguém no trabalho, e a Justiça do Trabalho trata a demissão por motivo político como nula, com indenização. As regras do TSE para 2026 vedam o assédio eleitoral, e quem incentiva também pode responder. Já a Lei 7.716/1989 pune com 2 a 5 anos de prisão quem divulga a suástica para propagar o nazismo. Imunidade parlamentar protege opinião, não incitação à ilegalidade. Foi demitido ou ameaçado pelo voto? Denuncie ao MPT em mpt.mp.br, com sigilo. Veja quanto o "demita" pode custar.

A resposta veio das urnas

Antes do "demita", o Brasil já tinha respondido. Da Bahia a Recife, dos ribeirinhos da Amazônia aos artistas de camisa verde e amarela, milhões foram às ruas e às urnas na virada que reelegeu Lula. Um vídeo que circula no Facebook resume a virada em três minutos.

A lição de 1933 não é que a história se repete. É que ela só anda quando ninguém para o primeiro passo.

ESPECIAL INTERATIVOVeja as fotos, Goebbels × Alvim, a linha do tempo e os sinais do fascismo um por um →

Com informações de Intercept Brasil, Brasil de Fato, Poder360, Correio Braziliense, InfoMoney, SBT News, Tribuna do Paraná, United States Holocaust Memorial Museum, Science Advances, Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Folha de S.Paulo, G1 e Umberto Eco ("O fascismo eterno"). Fotos: Wikimedia Commons, créditos na legenda e no especial.