Você acorda neste domingo sabendo de uma coisa: está diante da eleição presidencial mais disputada que o Brasil já mediu. Pesquisa Brazil Economy/Colectta divulgada na véspera cravou 50,3% para Lula e 49,7% para Flávio Bolsonaro — seis décimos de ponto que cabem dentro da margem de erro e não garantem nada a ninguém. O Datafolha mostrou 50% a 50% no meio da semana; a Vox Brasil de quarta deu 50,6% a 49,4%, mas ainda empate técnico. Em política de bastidor, quando todo mundo está empatado na sexta-feira, quem ganha é o acaso — e o trabalho de corpo a corpo que ninguém contabiliza.

O que ninguém esperava é que a reta final trouxesse, além da indefinição numérica, uma ofensiva de fatos. E fatos, nesta campanha, pesaram contra um lado só.

28 episódios em forma de jogo

Na quinta-feira, dois dias antes da eleição, um site chamado Crimeta Russa colocou na internet uma roleta que reúne 28 casos da vida pública de Flávio Bolsonaro. Você gira a roda, sai um episódio: rachadinha na Alerj, investigação do filme "Dark Horse" que apura pedido de US$ 24 milhões ao dono do Banco Master, offshore do advogado Willer Tomaz com o nome do senador, entre outros. Cada ficha traz o status do caso — investigação em curso, denúncia rejeitada, fato documentado —, e os links das reportagens e documentos que sustentam o relato. O site avisa: investigação não é condenação. Mas também não deixa dúvida sobre o volume de episódios que ainda não fecharam.

A ferramenta é didática, tem cara de jogo e funciona para quem ainda não decidiu o voto — justamente os 7% do eleitorado que, segundo a diretora do Datafolha, podem definir o resultado. Em bastidor, a leitura é que o timing da divulgação mirou exatamente esse público: gente que não acompanha o noticiário político todo dia, mas que na véspera da eleição vai atrás de informação. A roleta entrega isso em formato palatável, sem militância declarada, mas com recorte claro.

O custo político da proximidade perigosa

Outro episódio que ganhou corpo na semana foi a acusação da mãe de Ana Clara, menina de cinco anos morta por disparos de fuzil. Cristiane Gomes da Silva gravou vídeo dizendo que Flávio usou influência para proteger o policial acusado. "Se ele ganhar, eu perco qualquer esperança de um dia ter justiça pela minha filha", declarou. O depoimento circulou nas redes na sexta-feira, em plena mobilização do voto.

Não é acusação judicial; é relato de mãe que perdeu a filha e acredita que o poder blindou o responsável. Em ano normal, talvez não tivesse força para mudar intenção de voto. Em eleição de meio ponto de diferença, cada episódio que reforça a imagem de impunidade e privilégio pode arrancar décimos que não voltam mais.

A campanha de Flávio tentou contornar o desgaste apostando no debate da Globo, na sexta. Não deu certo. O cientista político Antonio Lavareda deu nota 7,8 para Lula e 7,0 para Flávio, apontando vitória do presidente em três dos quatro blocos. Entre indecisos, o saldo foi positivo para o petista. Em bastidor, a avaliação é que Flávio não conseguiu desmontar a narrativa que o persegue desde o primeiro turno: a de que carrega um passivo institucional pesado demais para o Planalto.

A diferença que cabe em um ponto

No fim, o tabuleiro está armado assim: dois candidatos empatados, uma campanha que expôs o histórico de um deles de forma sistemática na última semana e um punhado de eleitores que ainda pode mudar de ideia dentro da cabine. O trabalho de militância, que não aparece em pesquisa, pode inclinar a balança — mas o volume de informação negativa que chegou ao eleitor indeciso nos últimos dias não some com santinho na porta da seção.

A democracia vai decidir hoje. Mas se você achar que foi a roleta que girou o resultado, não vai estar completamente errado.

A coluna Bastidores do Poder sai todo domingo na seção Política do Você Viu Isso?. É opinião: os fatos estão nas matérias citadas.