A eleição presidencial, que terá seu segundo turno em 25 de outubro, apresenta um cenário de indefinição na corrida entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL). Uma parcela de apenas 7% do eleitorado, formada por brasileiros que admitem mudar seu voto, pode ser determinante para o desfecho da disputa. Essa avaliação é de Luciana Chong, diretora do Datafolha, que compartilhou sua análise com o jornal Valor Econômico, abordando as tendências da campanha, a polarização e as chances de crescimento de ambos os candidatos.

Com mais de três décadas de experiência no instituto de pesquisa, Chong projeta uma eleição apertada, salientando que os indicadores tradicionais de aprovação e rejeição já não são suficientes para prever o comportamento dos eleitores. A pesquisa Datafolha divulgada na última quinta-feira (15) mostrou Flávio Bolsonaro com 47% das intenções de voto totais e Lula com 45%, configurando um empate técnico dentro da margem de erro de dois pontos percentuais. Em apenas uma semana, a diferença entre os candidatos se reduziu de quatro para dois pontos, indicando que a disputa permanece aberta.

Eleitorado indeciso e polarização

Luciana Chong ressalta que a intensa polarização política torna difícil a transferência direta de votos entre Lula e Flávio Bolsonaro. Por isso, as campanhas estão focadas nos 7% dos eleitores que ainda podem alterar seu voto, um grupo considerado pequeno, mas potencialmente decisivo. A pesquisa revela que, entre esses eleitores, 57% são mulheres, 57% recebem até dois salários mínimos, 56% não rejeitam nenhum dos candidatos e 52% não se alinham a nenhum deles. Essa composição sugere que fatores econômicos, propostas sociais, debates e a mobilização política podem ser cruciais para a decisão final. A diretora do Datafolha destaca ainda que a presença dos candidatos nas ruas e suas performances nos debates podem influenciar esses eleitores.

Um dado expressivo identificado pelo Datafolha foi a recuperação do apoio a Lula entre os eleitores de 16 a 24 anos. Após uma série de manifestações pró-presidente, sua intenção de voto nesse segmento cresceu sete pontos percentuais, retornando ao patamar de 2022. No mesmo período, Flávio Bolsonaro perdeu sete pontos entre os jovens. Chong, contudo, alerta para a alta volatilidade eleitoral desse grupo, cuja participação em manifestações e redes sociais pode influenciar tanto a manutenção das preferências quanto o comparecimento às urnas.

Impacto da polarização e novas dinâmicas eleitorais

A diretora do Datafolha aponta a polarização política como um dos principais motivos da dificuldade de Lula em expandir sua aprovação, mesmo com indicadores econômicos positivos e a implementação de programas sociais. Segundo Chong, a divisão política atua como uma barreira para o reconhecimento das realizações do governo. Enquanto Lula encerrou seu segundo mandato em 2010 com mais de 80% de aprovação, no atual mandato, ele não alcançou metade desse índice. A pesquisa mais recente indica que 41% dos brasileiros consideram o governo ruim ou péssimo, 35% o avaliam como ótimo ou bom, e 23% como regular. Esses números persistem apesar da redução do desemprego e de medidas como a anistia de dívidas para microempresários, o reajuste do Bolsa Família e a oferta de medicamentos pelo SUS.

Chong questiona as regras tradicionais sobre reeleição, afirmando que a polarização alterou profundamente o comportamento político. A ideia de que um presidente com mais reprovação do que aprovação não conseguiria se reeleger já não é uma regra definitiva. A análise sugere que a avaliação do governo e a escolha entre candidatos não seguem a mesma lógica, e um eleitor pode desaprovar aspectos da administração e, ainda assim, decidir seu voto por outros fatores. Outro ponto abordado é o possível impacto eleitoral da aprovação, pelo Senado, da proposta de fim da escala 6x1, que reduz a jornada de trabalho. Os efeitos políticos dessa votação ainda não haviam sido captados pelas pesquisas até o momento, mas a medida pode influenciar a avaliação das políticas trabalhistas dos candidatos.

A diretora do Datafolha também observa uma mudança nas expectativas econômicas e sociais dos brasileiros. As demandas dos eleitores agora incluem acesso a bens de consumo e padrões de vida divulgados por influenciadores digitais, o que pode explicar por que políticas públicas que antes geravam grande reconhecimento eleitoral têm efeitos mais limitados. Chong nota que os eleitores tendem a esquecer rapidamente as medidas governamentais, o que leva a uma concentração de anúncios e promessas no período pré-eleitoral. O Bolsa Família, embora ainda seja uma política social importante, perdeu parte de seu impacto eleitoral histórico, com Flávio Bolsonaro ampliando sua presença entre os beneficiários. A continuidade do programa ao longo de diferentes governos pode ter diminuído, na percepção de parte dos beneficiários, a associação exclusiva do benefício a uma liderança política específica.

Ao analisar as possibilidades de crescimento dos candidatos, Chong aponta que Lula ainda pode ampliar seu apoio no Nordeste, região de forte base eleitoral. Já Flávio Bolsonaro tem se destacado entre os trabalhadores informais, um segmento que foi alvo de medidas anunciadas pelo governo federal na última semana. A disputa por esses eleitores envolve questões de renda, atividade econômica, custo de vida e perspectivas de melhoria das condições materiais.