Você tenta separar uma confusão num evento e morre com dois tiros no peito. Você está no acostamento fotografando sua bicicleta e uma caminhonete te atropela, mata e foge. Você manifesta apoio político na rua e um motorista avança o sinal vermelho pra cima de você. A semana que passou na polícia do Paraná e do Brasil mostrou que ir e vir — direito básico, lembra? — virou loteria, e que tentar fazer o certo pode custar a vida.
Thiere Felipe de Lima, 37 anos, foi morto a tiros no domingo (18) ao tentar apartar uma briga no 5º Encontro Mud Diesel, em Balsa Nova, região metropolitana de Curitiba. O evento tinha revista na entrada, proibia arma e previa expulsão de quem brigasse — tudo certinho no papel. Mas alguém entrou armado, discutiu, sacou e atirou duas vezes no peito de quem só queria acalmar os ânimos. O atirador fugiu, foi identificado e até agora não teve o nome divulgado. Thiere caiu ali mesmo, sem chance.
Não dá pra passar batido: revista na porta não impede violência se a cultura da bala está enraizada. Segurança privada cumpriu protocolo, mas protocolo não segura gente que acha que fuzil resolve desavença. E segurar briga alheia, no Brasil de 2026, virou ato de coragem que pode sair caro demais — literal.
Quando estar na rua já é correr risco
Na mesma madrugada de domingo, Claudinei Lima Fagundes, 18 anos, foi atropelado e morto enquanto fotografava a própria bicicleta no acostamento da Avenida Pedro Wosgrau, em Ponta Grossa. Uma caminhonete Ford Ranger acertou ele e mais um amigo. O motorista parou, desceu, olhou o rapaz caído no chão, voltou pro carro e vazou sem prestar socorro. Testemunhas viram tudo.
Claudinei estava no acostamento, de madrugada, com amigos, registrando um momento. Nada de errado. Nada de ilegal. E morreu porque alguém não viu, não quis ver ou — pior — viu e não se importou. Fuga sem socorro é covardia com nome técnico: omissão de socorro, crime do Código de Trânsito Brasileiro, até um ano de cadeia. Mas quantos motoristas que fogem depois de matar são de fato punidos? A gente sabe a resposta.
E se você acha que manifestação política é lugar seguro, pense de novo. Um motorista de 45 anos atropelou um idoso de 67 que participava de ato pró-Lula em Belo Horizonte no sábado (17). O cara avançou sinal vermelho com o carro em cima do grupo de manifestantes, acertou o senhor e fugiu. Foi preso depois, mas o recado ficou: discordar de quem está na rua, hoje, pode virar tentativa de homicídio sobre quatro rodas.
Quando quem devia proteger vira caso de polícia
E aí você pensa: 'pelo menos os agentes da lei estão do lado certo'. Aí vem a notícia de que um perito criminal federal, 59 anos, foi preso em Londrina na madrugada de quarta (21) bêbado, dormindo dentro de um carro parado no meio da rua, com pistola debaixo da perna e dois coldres no banco. Quando a PM chegou, ele estava de pés no painel. Perito. Federal. Armado. Bêbado. No meio da via.
Não é caso isolado, é sintoma: gente que carrega arma institucional e acha que está acima da lei. E quando a própria lei dorme bêbada com fuzil no colo, o que sobra pro cidadão comum? A mesma semana trouxe um alento: policiais militares salvaram um bebê de 30 dias que engasgou com leite na sede da 2ª Companhia, em Londrina. A mãe correu até a PM, os agentes fizeram a manobra, a criança voltou a respirar. É disso que a gente precisa: polícia que salva, não que dorme armada e bêbada.
Hoje é domingo de eleição. Você vai votar. E quando voltar pra casa, vai torcer pra ninguém te atropelar na calçada, te dar tiro porque você quis separar briga ou te matar porque você manifestou opinião política. A pergunta que fica é: até quando segurar briga, tirar foto de bicicleta ou sair pra protestar vai ser roleta-russa no Paraná?
A coluna Plantão de Domingo sai todo domingo na seção Polícia do Você Viu Isso?. É opinião: os fatos estão nas matérias citadas.







Comentários
Seja o primeiro a comentar.