A Unesco inscreveu três sítios brasileiros em uma rede internacional dedicada à memória da escravidão. Os reconhecidos foram o Cais do Valongo, no Rio de Janeiro; a Sociedade Protetora dos Desvalidos, em Salvador, Bahia; e a Serra da Barriga, em União dos Palmares, Alagoas. Integram agora a Rede de Lugares de História e Memória Relacionados à Escravidão e ao Tráfico de Pessoas Escravizadas, iniciativa da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura.

O Cais do Valongo, na região portuária do Rio, preserva vestígios de um dos principais pontos das Américas onde africanos e africanas escravizados foram desembarcados. A região já constava da Lista do Patrimônio Mundial da Unesco desde 2017. Em Salvador, a Sociedade Protetora dos Desvalidos representa a primeira instituição civil negra brasileira em funcionamento contínuo. Criada em 1832 por Manoel Victor Serra e outros homens negros livres, ela reflete a organização e solidariedade da população negra desde o século XIX. Na Serra da Barriga, localiza-se o Parque Memorial Quilombo dos Palmares, que guarda a memória do histórico quilombo como espaço de resistência à escravidão.

A candidatura à rede foi apresentada pelo Ministério das Relações Exteriores (MRE). A iniciativa foi criada em 2024 como parte do Programa Rotas dos Escravizados: Resistência, Liberdade e Patrimônio da Unesco. Conforme Marlova Jovchelovitch Noleto, diretora e Representante da Unesco no Brasil, a rede busca conectar espaços de diferentes países, promovendo trocas de experiências e desenvolvimento de ações educativas e de pesquisa sobre a escravidão.

O Brasil celebrou o reconhecimento. O MRE informou que a inclusão dos três lugares contribui para a preservação e transmissão da memória da escravidão, o reconhecimento da resistência histórica da população negra e a educação das novas gerações. Outros sítios brasileiros já fazem parte da rede: o Museu da Inconfidência, em Minas Gerais; e os Museus Casa da Hera e da República, ambos no Rio.

O significado do reconhecimento

Para a diretora da Unesco no Brasil, mais que reconhecer o passado, a iniciativa pretende levar essa memória às futuras gerações e contribuir para o entendimento dos efeitos duradouros da escravidão, como o racismo estrutural e desigualdades contemporâneas. "Também cria oportunidades para que os responsáveis por esses espaços compartilhem boas práticas, desenvolvam ações conjuntas e ampliem a visibilidade de suas histórias em um contexto internacional", afirmou Marlova.

Ivanir dos Santos, doutor em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e babalaô, vê o reconhecimento dos três sítios como oportunidade de questionar narrativas tradicionais sobre a formação da sociedade brasileira. Para o interlocutor da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa do Rio de Janeiro, os lugares expressam diferentes dimensões da experiência negra no Brasil, desde a violência do tráfico transatlântico até estratégias coletivas de organização e resistência.

A importância desses patrimônios está ligada à trajetória do movimento negro brasileiro, que tem sido fundamental para denunciar o racismo e reivindicar direitos, aponta Santos. A Serra da Barriga simboliza a resistência à escravidão e a luta por liberdade, enquanto o Cais do Valongo marca a dimensão histórica da violência escravista. A Sociedade Protetora dos Desvalidos, por seu lado, demonstra como a população negra criou formas de associação, apoio mútuo e mobilização coletiva diante do racismo e da desigualdade social.

O professor ressalva que a valorização desses lugares não se deve limitar ao reconhecimento institucional ou simbólico. É fundamental que seja acompanhada de políticas efetivas de preservação, educação antirracista e participação das comunidades negras na gestão e interpretação dos sítios. Dessa forma, a proteção desses patrimônios pode fortalecer as lutas do movimento negro ao conferir visibilidade internacional às suas experiências e reafirmar o papel histórico na construção de uma sociedade mais justa.