Quem passou a campanha inteira prometendo "pátria e família" terminou a semana da derrota longe das duas. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), derrotado por Lula no segundo turno de domingo (25), deixou o Brasil rumo aos Estados Unidos na madrugada desta terça-feira (27), segundo fontes da Polícia Federal ouvidas pela Gazeta do Povo. Ele estava proibido pelo Supremo de sair do país e tinha até as 11h da manhã para entregar os passaportes. Não entregou. Ao meio-dia, a PF cancelou os documentos.
Uma autoridade do governo americano confirmou a viagem à CNN. Aliados da família dizem que ele foi com a mulher e as duas filhas, que o destino é a Flórida e que vai pedir asilo político ao governo Trump. Nada disso foi confirmado oficialmente por Washington. A campanha, por meio do coordenador Rogério Marinho, negou a viagem durante a manhã, e o irmão Eduardo chamou a notícia de "falsa". Os próprios advogados de Flávio, porém, admitiram que não conseguiam encontrá-lo em Brasília.
ESPECIAL INTERATIVOVeja a fuga hora a hora, no mapa: a rota, o passaporte cancelado, os inquéritos e a aposta em Washington →
A linha do tempo
- Sexta, 23/10Num podcast nos EUA, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, que mora lá desde 2025 e foi condenado pelo STF por coação, diz o que a família planejava: "se meu irmão não vencer, sou a favor de que ele deixe o país. Sim, com certeza".
- Domingo, 25/10Lula é reeleito com 51,79% dos votos válidos contra 48,21%. Flávio não reconhece expressamente o resultado, fala em pedir a anulação da chapa vencedora e depois diz que vai "liderar a oposição". Deputados aliados já comentam que a Argentina seria a rota mais fácil caso ele decidisse sair.
- Segunda, 26/10Por ordem do ministro Alexandre de Moraes, a PF intima Flávio a entregar em 24 horas o passaporte comum e o diplomático. A decisão também proíbe a saída do país, manda colocar alerta migratório no sistema da PF e veta contato com o advogado Willer Tomaz, alvo do mesmo inquérito. Flávio grava vídeo: "Eu vou entregar os meus passaportes e vou me defender dessa aberração, que é uma clara tentativa de me intimidar". A assessoria acrescenta que ele "nunca pensou em deixar o Brasil".
- Segunda à noite, 26/10Um jatinho Gulfstream de uma empresa de táxi aéreo argentina pousa em Puerto Iguazú, do outro lado da fronteira com Foz do Iguaçu, às 23h42, segundo o Metrópoles. O jornal argentino Infobae publica que Flávio teria cruzado a fronteira e embarcado ali. O governo Milei nega entrada e pedido de asilo, e diz que o avião não decolou. Até agora, a PF não achou registro de passagem dele por posto oficial, o que não descarta travessia irregular.
- Terça, 27/10, manhãSeguranças da casa de Flávio em Brasília, de plantão desde as 7h, não veem movimento. Aliados não conseguem falar com ele. Às 11h, vence o prazo: nenhum passaporte entregue.
- Terça, 27/10, meio-diaA PF cancela os dois passaportes no sistema. Na prática, ele passa a ser barrado em qualquer controle migratório do mundo que consulte a base brasileira. Aliados e advogados passam a apostar que Moraes vai decretar a prisão preventiva.
- Terça, 27/10, tardeFontes da PF confirmam que ele deixou o país rumo aos EUA. Aliados dizem que a chegada seria em Miami, por volta das 17h. O advogado mexicano Simón Levy, ligado ao movimento de Trump, afirma que ele chegou "em segurança" numa operação "arquitetada" pelo secretário de Estado Marco Rubio. É a versão de um aliado, sem confirmação oficial.
Os inquéritos que ele deixou para trás
Flávio não está sendo processado por ter perdido a eleição. Ele é investigado no Supremo por suspeitas que vêm de antes da campanha:
1. Dark Horse e o dinheiro de Vorcaro. Em 22 de julho, o ministro André Mendonça, indicado ao STF pelo próprio Jair Bolsonaro, incluiu Flávio como investigado no inquérito sobre os repasses do banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, para o filme Dark Horse, sobre a vida do pai. Fala-se em R$ 61 milhões. O caso veio à tona depois que o Intercept Brasil publicou áudio em que o senador pede dinheiro a Vorcaro para a produção. A PF apura lavagem de dinheiro, corrupção e evasão de divisas, com parecer favorável da PGR. Em outra frente do mesmo filme, sob relatoria de Flávio Dino, a PF cumpriu 49 mandados para investigar emendas parlamentares que teriam irrigado a produção.
2. O advogado das bets. Em outubro, a PF mandou ao STF um segundo inquérito, sorteado para Moraes, sobre suspeita de lavagem de dinheiro na relação de Flávio com o advogado Willer Tomaz. Segundo a PF, Tomaz controla de fato a Rede Loto, primeira empresa de apostas autorizada pelo estado do Rio. No iCloud do advogado, os investigadores acharam festas, encontros, pagamento de viagens do senador e uma conta da Alcazar Holding em que Flávio aparece como "usuário master". Uma das contas de Tomaz movimentou cerca de R$ 130 milhões entre março e maio de 2025. É neste inquérito que saiu a ordem de entregar o passaporte.
3. Calúnia contra Lula. Também com Moraes, um terceiro inquérito apura possível calúnia contra o presidente. Segundo a imprensa, a PF já concluiu que houve crime e aguarda a manifestação da PGR.
Tem ainda o que fica no TSE: há ações da eleição pendentes que podem torná-lo inelegível. E, sem se reeleger, Flávio perde o foro em fevereiro de 2027, quando acaba o mandato no Senado, pela primeira vez em 24 anos sem cargo público. A expectativa é que os inquéritos sigam no STF mesmo assim.
Antes disso tudo, houve o caso das "rachadinhas" no gabinete da Alerj, que rendeu denúncia do Ministério Público do Rio em 2020 e terminou sem julgamento de mérito depois que o STJ anulou as quebras de sigilo. Flávio nega irregularidades em todos os casos e diz ser alvo de perseguição política.
A mesma jogada em Washington, mais uma vez
O roteiro é conhecido. Em 2025, Eduardo Bolsonaro se mudou para os EUA e passou meses vendendo ao governo Trump a história de que o pai era vítima de uma "caça às bruxas". Deu resultado no curto prazo: em julho daquele ano veio o tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros, com a justificativa explícita do julgamento de Jair Bolsonaro, e a Lei Magnitsky foi usada contra Alexandre de Moraes. Quem pagou a conta foi o exportador brasileiro, o produtor de café e de carne. Nada disso livrou Jair: ele foi condenado a 27 anos e 3 meses pela trama golpista. E, meses depois, o próprio Trump se reaproximou de Lula e recuou em boa parte das tarifas.
Agora a aposta é a mesma: chegar à Flórida e convencer os americanos de que um senador que responde por lavagem de dinheiro, corrupção e evasão de divisas é um perseguido político. Na véspera, a assessoria jurava que ele "nunca pensou em deixar o Brasil". No sábado anterior, o irmão defendia em público justamente isso. Pedido de asilo serve para quem é perseguido por opinião, não para quem precisa explicar R$ 130 milhões e um filme financiado por banqueiro preso.
A família, aliás, coleciona saídas pela porta dos fundos. Em 2024, com o passaporte apreendido, Jair passou dois dias na embaixada da Hungria em Brasília. Em 2025, a PF achou no celular dele um pedido de asilo à Argentina que nunca foi usado. Eduardo está nos EUA desde 2025, condenado e foragido. O ex-diretor da Abin Alexandre Ramagem, condenado a mais de 16 anos, fugiu para os EUA. Carla Zambelli foi para a Itália.
E agora?
Descumprir a ordem de entregar o passaporte e sair do país proibido abre caminho para um pedido de prisão preventiva e para a inclusão do nome na difusão vermelha da Interpol, providências que deputados do PT já cobraram. Se a fuga se confirmar oficialmente, o Brasil pode pedir a extradição. Um eventual asilo dependeria de decisão do governo americano, que até a noite desta terça não tinha se manifestado.
Enquanto isso, o mandato de senador segue até fevereiro, pago com dinheiro público.
A assessoria de Flávio não respondeu aos veículos que a procuraram durante o dia. O espaço do Você Viu Isso? está aberto para a manifestação do senador. Esta matéria será atualizada conforme a PF, o STF e o governo dos EUA se manifestarem.
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Com informações de Gazeta do Povo, Jovem Pan, CNN, CNN Portugal, Metrópoles, Folha de S.Paulo, O Povo/Estadão, UOL e ICL Notícias. Fontes: Gazeta do Povo, Jovem Pan, CNN, CNN Portugal, Metrópoles, O Povo.







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