247 – O presidente Lula (PT) criticou Donald Trump nesta quarta-feira (23) após o chefe da Casa Branca confirmar a possibilidade de o governo do presidente dos Estados Unidos usar um “poderio militar incomparável” na América Latina para garantir segurança contra cartéis de drogas. Lideranças do campo progressista do continente denunciam que o político da extrema direita estadunidense usa o falso pretexto de combate à criminalidade, mas pretende interferir na soberania de países latino-americanos.
“Eu não quero fazer guerra com ele. Quero ganhar dele na narrativa. E nós estamos ganhando na narrativa”, afirmou Lula durante evento no Rio, onde cerca de 100 artistas compareceram a um ato de campanha na Fundição Progresso, no Rio de Janeiro (RJ).
“O importante no meu discurso na ONU foi comparar com o de Trump. É comparar o discurso de um presidente de um País em desenvolvimento, e o de um presidente que começa dizendo: ‘tenho o maior Exército do mundo, maior Marinha do mundo, a melhor bomba do mundo, sou o país mais forte do mundo’. Ele fala isso em toda reunião”, acrescentou Lula.
Polêmica de Trump
O presidente dos EUA usou o seu discurso para comparar as gangues latino-americanas ao grupo terrorista Estado Islâmico.
“Nossas ações na Venezuela são prova de que os Estados Unidos não vão mais permitir que ameaças à América ganhem posição de destaque no hemisfério ocidental e, se necessário, usaremos nosso poderio militar incomparável para garantir os interesses nacionais vitais dos EUA”, disse.
“Depois de chegar ao cargo, eu designei os cartéis de drogas como organizações terroristas estrangeiras e desencadeei uma operação com as Forças Armadas Americanas para eliminá-los. Os cartéis são o Estado Islâmico do hemisfério ocidental”, complementou.
Lula na ONU
O presidente brasileiro abriu seu discurso na Assembleia Geral da ONU com uma defesa do multilateralismo e uma crítica à paralisia do Conselho de Segurança, que, segundo ele, perdeu capacidade de responder às guerras e às crises internacionais. Lula condenou a escalada armamentista e defendeu a diplomacia como saída para conflitos como a guerra entre Rússia e Ucrânia. Ao abordar o Oriente Médio, classificou as ações do governo Benjamin Netanyahu na Faixa de Gaza como genocídio.
Na parte dedicada à América Latina, Lula colocou a soberania no centro da mensagem e afirmou que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”. Criticou o uso de tarifas como instrumento de coerção, reafirmou a exploração de minerais críticos e terras raras com geração de valor e transferência de tecnologia no Brasil e defendeu regras para Big Techs, inteligência artificial e plataformas de apostas.
Na agenda interna, destacou distribuição de renda, valorização do salário, combate à desigualdade e o fim da escala 6×1. Ao encerrar, levou a disputa eleitoral brasileira ao centro do discurso: afirmou que o pleito de 4 de outubro será transparente e competitivo e declarou que o país não permitirá interferências internas ou externas contra a vontade popular, concluindo que “a democracia brasileira pertence aos brasileiros” e que “o Brasil continuará sendo um país soberano”.
Agressões à soberania brasileira
Em 2026, os EUA impuseram ao Brasil dois tarifaços, de 25% e 12,5%. A guerra comercial teve como uma das motivações a condenação de Jair Bolsonaro (PL). A gestão trumpista também classificou as facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.
Além da condenação de Bolsonaro, outro fator associado às ações dos EUA foi a aproximação brasileira com três polos que formam frentes de resistência à hegemonia estadunidense na economia internacional: China, BRICS e Sul Global.
As medidas contra o Brasil também decorreram das articulações da extrema direita bolsonarista nos EUA, país visitado pelo candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) em algumas ocasiões neste ano. Irmão do candidato, o ex-deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) vive em território estadunidense e incentiva a adoção de sanções contra o Brasil.
Pelo menos 14 países da América Latina se alinharam aos EUA e defenderam uma ação conjunta contra 24 organizações classificadas pelo governo estadunidense como terroristas, entre elas o PCC e o CV. A iniciativa faz parte do projeto “Escudo das Américas”, lançado por Trump em março.
Lei da Reciprocidade
O governo brasileiro afirmou que acionará “imediatamente” a Lei de Reciprocidade em resposta à medida. Sancionada em 11 de abril de 2025, a legislação também surgiu em meio a medidas adotadas por Trump. Naquele período, Trump ampliou a guerra comercial contra vários países, entre eles o Brasil, e anunciou novas sobretaxas sobre importações.
A Lei nº 15.122 estabelece critérios para que o governo brasileiro suspenda concessões comerciais em resposta a ações, políticas ou práticas unilaterais adotadas por outro país ou bloco econômico que prejudiquem a competitividade do Brasil.
Na prática, caso um parceiro comercial adote uma medida que cause prejuízos ao Brasil nessa relação, o governo poderá recorrer a diferentes contramedidas. Entre elas estão a imposição de tributos ou taxas, o fim de isenções ou de reduções tarifárias e a restrição à importação de bens ou serviços.
A legislação determina ainda que essas contramedidas sejam, na medida do possível, proporcionais ao impacto econômico provocado pela ação adotada pelo outro país ou bloco econômico.







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