A derrota de Iván Cepeda na eleição presidencial colombiana deve soar como um forte alerta para a esquerda brasileira. Embora as últimas pesquisas apontassem uma disputa apertada, Abelardo de la Espriella, candidato da extrema direita, surpreendeu ao chegar à frente já no primeiro turno. Diante desse quadro, estudantes, sindicatos, artistas e movimentos populares intensificaram sua presença nas ruas durante a campanha para o segundo turno, numa fortíssima e lindíssima reação. Mas já não havia tempo suficiente: De la Espriella terminou vencendo, mesmo que por uma margem ínfima.
Nenhum governo pode supor que suas realizações falarão por si mesmas, nem que o perigo representado pela extrema direita será evidente para todos, porque não é. Nestes últimos dias de campanha surgem sinais claros de aperto. As pesquisas — com todas as ressalvas que merecem — mostram Lula e o pior dos Bolsonaro tecnicamente empatados não apenas no segundo turno, mas, em várias delas, também no primeiro. São retratos do momento, não previsões do resultado. Mas oferecem uma razão concreta para reagir agora, e reagir com força.
Se Lula terminar o primeiro turno em segundo lugar ou mesmo empatado com o candidato bolsonarista, enfrentaremos uma situação crítica. Não porque uma virada seja impossível, mas porque o adversário entrará nas semanas decisivas com força demonstrada nas urnas e condições de atrair boa parte dos votos dos demais candidatos. Esperar até lá para intensificar nossa mobilização seria um erro que pode nos custar muito, mas muito caro. O que se define no dia 4 de outubro diz respeito aos próximos anos das nossas vidas.
Não podemos ficar apenas nas redes, compartilhando vídeos, textos e memes em nossas bolhas. Urge sair às ruas, dialogar com humildade com as pessoas nos locais de trabalho, na vizinhança e nos centros de estudo e disputar o sentido desta eleição. Devemos defender as conquistas e reconhecer o muito que ainda resta por fazer. Uma campanha que só pede gratidão pelo que foi feito não consegue mobilizar aquelas e aqueles que esperam, com razão, mudanças mais profundas nas próprias vidas.
A militância, nestas semanas, precisa fazer parte do nosso dia a dia. A campanha deve ser a nossa prioridade máxima: andar adesivado, levar sempre algum material no bolso, reservar tempo para as atividades de rua e adiar o que puder esperar. Um encontro social ou uma consulta médica inadiável também deveriam ser ocasião para conversar e, sobretudo, escutar. E nessas conversas, é preciso lembrar também das candidaturas à Câmara e ao Senado: Lula precisará de uma bancada potente, que sustente e impulsione seu quarto mandato.
A experiência colombiana tampouco autoriza uma explicação cômoda que culpe os eleitores pela vitória da direita. Obriga-nos a perguntar por que setores que poderiam defender a continuidade de um projeto progressista não se mobilizaram a tempo, ou não se sentiram suficientemente convocados por ele. Essa pergunta precisa orientar a nossa campanha. E, com a mão no coração, cabe a cada uma e cada um de nós perguntar: estamos fazendo tudo o que está ao nosso alcance nesta reta final rumo ao 4 de outubro?
O segundo turno não deveria ser o momento de começar. Temos que entrar em modo “segundo turno” já. A tarefa urgente é transformar o alerta vindo da Colômbia em presença massiva e organizada, iniciativa política e mobilização popular enquanto há tempo.







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