247 – Às vésperas do discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, fez um alerta contra a “relativização da soberania” e a “erosão do multilateralismo” durante reunião de chanceleres da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), em Nova York.
Segundo o Ministério das Relações Exteriores, Vieira abordou o tema em discurso a ministros da região, em um momento de tensão diplomática envolvendo o Brasil e os Estados Unidos, presididos por Donald Trump.
“Em seu discurso, [Mauro Vieira] alertou para a relativização da soberania e a erosão do multilateralismo”, informou o Itamaraty, sem detalhar o conteúdo completo da fala.
A declaração antecipa o tom que deve ser adotado por Lula nesta terça-feira (22), quando o presidente brasileiro abre a Assembleia Geral da ONU. Lula também deve defender a soberania nacional em seu discurso, com recados à comunidade internacional, mas sem citar nominalmente líderes estrangeiros.
A estratégia busca evitar embates diretos ou constrangimentos diplomáticos, especialmente com Trump. Ainda assim, o tema ganhou centralidade depois de uma série de medidas adotadas pelo governo norte-americano contra o Brasil.
Entre elas estão dois tarifaços sobre produtos brasileiros, justificados por Washington sob a alegação de que o país praticaria ações desleais contra empresários dos Estados Unidos e falharia no combate à importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado. O governo Trump também classificou o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas internacionais, argumentando que o Brasil não teria atuado de forma suficiente contra as facções e que elas passaram a operar em território norte-americano.
Outro ponto de atrito foi a indicação de um político alinhado à direita, e não de um diplomata de carreira, para a embaixada dos Estados Unidos no Brasil. Segundo o g1, esse indicado defende ações militares na região, o que ampliou a preocupação do governo brasileiro com possíveis gestos de interferência externa.
Lula tem afirmado publicamente que deseja se encontrar com Trump para dizer ao presidente norte-americano que não tente interferir nas eleições brasileiras deste ano. Recentemente, os dois conversaram por cerca de uma hora e meia por telefone. Conforme relatos de auxiliares que acompanharam a conversa, Trump mencionou o processo eleitoral brasileiro, e Lula respondeu que a eleição transcorre normalmente e que o sistema de votação é confiável.
Além da defesa da soberania, Mauro Vieira levou à reunião da Celac uma posição brasileira sobre a sucessão no comando da ONU. O mandato do secretário-geral António Guterres, de Portugal, termina neste ano, e o Brasil defende que a próxima liderança da organização seja uma mulher latino-americana.
O governo brasileiro apoiava a candidatura da ex-presidente chilena Michelle Bachelet, mas ela desistiu da disputa. Até o momento, o Brasil ainda não anunciou novo nome, embora sustente que a América Latina e o Caribe têm mulheres “à altura” do cargo.
“[Mauro Vieira] defendeu, no contexto dos desafios geopolíticos atuais, a coesão dos países da Celac em torno de uma candidatura da região ao posto de secretário-geral da ONU, em respeito ao princípio de rotatividade entre as regiões”, informou o Itamaraty.
O ministério acrescentou que o chanceler “reiterou a posição brasileira em favor da escolha de uma mulher da região para o cargo, a primeira na história a ocupar o cargo máximo da organização”.
A defesa de uma candidatura latino-americana se soma ao esforço diplomático do Brasil para ampliar o peso político da região em organismos internacionais. No mesmo movimento, o Itamaraty tem insistido na necessidade de preservar o multilateralismo, em contraposição a medidas unilaterais adotadas por potências estrangeiras.






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