247 – Mensagens que a Polícia Federal extraiu do celular de Daniel Vorcaro registram trocas pessoais e contatos políticos entre o ex-controlador do Banco Master e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP). Os diálogos incluem declarações de amizade entre os dois, conversas sobre encontros sociais e referências ao senador em articulações envolvendo outras autoridades. A informação foi publicada nesta quinta-feira (24) pela revista Veja.
As mensagens integram o material obtido pela PF no telefone de Vorcaro, que está preso atualmente por envolvimento em um esquema bilionário de fraudes financeiras descoberto pela Operação Compliance Zero, da Polícia Federal. Um dos diálogos ocorreu em 1º de fevereiro de 2025. Vorcaro enviou uma mensagem a Alcolumbre para parabenizá-lo pela chegada à presidência da Casa Legislativa e desejar sucesso no novo mandato.
O senador respondeu: “Fala meu amor! Muito obrigado por tudo, em especial pelo seu carinho e amizade fraterna! Gratidão!”. “Sou seu irmão!!! Pra vida toda!!”, acrescentou o parlamentar. “E eu seu [irmão]. A qualquer tempo pra qualquer coisa. Nunca vou esquecer”, disse o ex-banqueiro.
Os contatos abrangem diferentes períodos, entre eles fevereiro de 2025, quando Alcolumbre assumiu novamente o comando do Senado, além de conversas sobre eventos privados e uma troca de mensagens ocorrida durante as tratativas para a venda do Banco Master ao Banco de Brasília (BRB).
Outras mensagens remontam a outubro de 2023 e incluem Vorcaro, Fábio Faria, ex-ministro das Comunicações do governo Jair Bolsonaro, e outros interlocutores. Eles conversavam em um grupo chamado “Macallan”, referência à uma marca de uísque escocês, segundo a documentação divulgada pela Veja.
Em uma das conversas, Vorcaro comenta que “Aquela de 3 metros” estaria em um encontro. Na sequência, Faria menciona Alcolumbre. “Foda que o Davi aprendeu a falar pelo Google tradutor e pode assustar a menina”, escreveu o ex-ministro. “Kkkkkk. Bonde do tigrão”, disse o ex-banqueiro. “Davi falou q está com dança nova”, acrescentou Faria. O diálogo faz uma suposta referência a mulheres que eram chamadas para participar das festas bancadas pelo ex-banqueiro.
Londres aparece em novos diálogos
Outro conjunto de mensagens trata de um evento previsto para abril de 2024 em Londres. Naquele período, autoridades brasileiras participariam de um fórum dedicado a discussões sobre o cenário jurídico do país.
Em 28 de março daquele ano, Vorcaro demonstrou preocupação com a descrição de uma confraternização paralela e comentou a presença de mulheres no encontro.
“To achando que não vai dar pra fazer off la viu. To com receio. Foda que tem nego que ta indo so pra isso ne kkkk”, escreveu Vorcaro. Fábio Faria respondeu: “Daquele jeito da. Fazemos pros caras e ficamos de boa. E depois vamos pra um menor. Pegar uma suíte em outro hotel. Deixa umas quatro lá”. O ex-ministro acrescentou que faria um pacto com Alcolumbre para restringir a circulação das informações: “E fazemos um pacto com Davi q só pode falar pro careca”.
Diálogos anteriores entre Faria e Vorcaro mostram que os dois utilizavam o apelido “careca” ao falar do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). A presença dessa expressão na conversa não esclarece se Alcolumbre participou da combinação mencionada por Faria.
Em nota, Faria disse que a conversa sobre suítes tratava de uma viagem com quatro empresários que avaliavam uma possível participação societária no clube inglês Queens Park Rangers. Ele negou relação entre essa conversa e Alcolumbre.
“O assunto não tem relação alguma com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, que em nenhum momento foi cogitado para essa viagem. A única vez que o empresário encontrou Davi Alcolumbre fora do Brasil foi em outubro de 2023, durante um evento empresarial em Paris”, afirmou Faria em um trecho da nota reproduzida pela revista.
Vorcaro buscou Alcolumbre durante negociação do Master
As mensagens também situam Alcolumbre nas tratativas que cercaram a tentativa de venda do Banco Master ao BRB em 2025.
Em julho daquele ano, quando o Banco Central analisava a operação, Vorcaro relatou ao presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), uma tentativa de contato com Alcolumbre. Segundo o diálogo, o presidente do Senado não possuía naquele momento informações que esclarecessem a situação da negociação.
Motta respondeu a Vorcaro com uma informação sobre o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo: “Galípolo ficou de ir lá para casa de Davi quando encerrasse a reunião”. “Eu tava (sic) decolando quando o Davi me ligou para dizer isso”, continuou o presidente da Câmara.
As mensagens divulgadas não esclarecem se Galípolo efetivamente participou do encontro mencionado, nem apresentam detalhes sobre eventual pauta de uma conversa com Alcolumbre. A documentação também não demonstra, nesse trecho, qualquer interferência do senador em decisão do Banco Central sobre o Master.
A relação entre autoridades e Vorcaro aparece em diferentes conjuntos de mensagens recolhidos pela PF. Documentos anteriores já registraram referências a encontros do ex-banqueiro com integrantes do Congresso, do governo e do Judiciário.
Esquema do Master
A Operação Compliance Zero, iniciada em 2024, apura suspeitas de que instituições integrantes do Sistema Financeiro Nacional tenham emitido títulos de crédito falsos. Segundo a investigação, essas instituições criavam operações de crédito inexistentes, com a simulação de empréstimos e de outros recebíveis. Depois que o Banco Central aprovava a contabilização, elas trocavam os créditos fraudulentos e os títulos de dívida por outros ativos, sem realizar a avaliação técnica adequada.
O Banco Master captava recursos por meio de Certificados de Depósito Bancário (CDBs), investimentos de renda fixa com rentabilidade estabelecida previamente. Esse tipo de aplicação conta com a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), característica que contribui para que o mercado o considere um investimento seguro.
A instituição controlada por Daniel Vorcaro oferecia remunerações muito superiores às praticadas normalmente. Enquanto bancos costumam oferecer CDBs com rendimento equivalente a 100% da taxa de juros, o Master prometia retornos de até 140%. Com isso, a estratégia elevava a exposição dos credores ao risco e repassava parte desse impacto ao FGC.
Nesse modelo, o investidor entrega recursos ao banco e recebe posteriormente o capital investido acrescido dos juros. O Master colocou no mercado R$ 50 bilhões em CDBs com remuneração acima das taxas usuais, sem demonstrar que possuía liquidez suficiente para honrar esses compromissos no futuro.
Segundo as investigações, para transmitir uma imagem de solidez financeira, o banco teria contabilizado investimentos em ativos que não existiam e adquirido “créditos” de uma empresa sem capacidade de pagamento. Em seguida, teria vendido esses créditos ao BRB, que pagou R$ 12,2 bilhões sem a documentação adequada. Os investigadores sustentam que essa operação ajudou a reforçar artificialmente o caixa do Master.







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