Um fenômeno crescente no cenário político brasileiro tem sido a mobilização de parlamentares com discursos e ações consideradas transfóbicas, configurando o que alguns observadores chamam de uma "bancada anti-trans". Embora não seja um colegiado formal, essa frente informal ganha força nas casas legislativas, impulsionada por votações expressivas e pela transformação da pauta em conteúdo e mandato político.
Essa análise tem como base estudos acadêmicos que já apontavam, antes mesmo das últimas eleições, a intensificação do discurso de ódio contra a comunidade trans. O pleito de 2026 demonstrou um aumento significativo na escala desse movimento. Nikolas Ferreira (PL-MG), por exemplo, foi reeleito como o deputado mais votado do país, com 3.119.318 votos. Ele é conhecido por episódios como o uso de uma peruca loira para se apresentar como "deputada Nikole" no Dia Internacional da Mulher de 2023, uma condenação por ofensas transfóbicas contra Duda Salabert e comentários controversos dirigidos a Erika Hilton em audiências.
Em São Paulo, Lucas Pavanato (PL) obteve 3.038.438 votos, tornando-se o mais votado do estado e o segundo em nível nacional. Sua campanha foi marcada por projetos sobre questões trans quando era vereador, e a agência Lupa classificou 28 vídeos de sua campanha como transfóbicos ou machistas. A Justiça Eleitoral chegou a suspender o impulsionamento pago de um vídeo seu contra Erika Hilton. Erika, uma mulher trans, foi reeleita com 1.596.472 votos, sendo a mulher mais votada na história da Câmara, ficando atrás de Pavanato na votação geral do estado.
Articulação e Vínculos Internacionais
A articulação dessa pauta se estende por diversos estados. Em Santa Catarina, Julia Zanatta foi reeleita com 560.223 votos, após debater o uso de banheiros por pessoas trans com Hilton e ser acusada de usar as redes para ofendê-la. Somando os votos de Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato, Eduarda Campopiano (que também teve votação expressiva em São Paulo, 1.956.238 votos) e Julia Zanatta, chegam-se a mais de 8,6 milhões de votos. O Distrito Federal elegeu Victor Jansen, que prometeu combater a “ideologia de gênero” e a presença de "marmanjos" em banheiros femininos.
O antifeminismo também se soma a essa agenda, com seis mulheres do PL eleitas em 2026 e identificadas com a pauta antifeminista, totalizando mais de 6,5 milhões de votos. Entre elas, Campopiano, que se declara antifeminista, e Zanatta, que construiu sua carreira contra o feminismo e a "pauta de gênero". Ana Campagnolo, a deputada estadual mais votada de Santa Catarina, é autora de um livro de 2019 que aborda o feminismo como "perversão e subversão".
A Rede por Trás do Movimento
A proteção das mulheres, neste arranjo, serve como pretexto. A associação Mátria, registrada em 2023 e sediada em Joinville, é descrita como um ator central na articulação entre movimentos de mulheres e a ultradireita, atuando no Legislativo e no Judiciário. A Mátria nega ser antitrans, afirmando defender direitos das mulheres com base no sexo. No entanto, sua agenda não inclui a defesa explícita do aborto legal, do combate à violência doméstica ou da promoção da igualdade de gênero, o que questiona o foco de sua atuação e revela colaboração com parlamentares cristãos e bolsonaristas em projetos antitrans.
Os vínculos internacionais desse movimento foram mapeados por diversas entidades. Há parcerias com a americana WoLF e a Alliance Defending Freedom, um grupo cristão que levou a Suprema Corte dos Estados Unidos a derrubar a garantia constitucional do aborto em 2022. No topo dessa cadeia global está a escritora J.K. Rowling, que financia o movimento que a Mátria replica no Brasil. Rowling apoiou a ação do grupo For Women Scotland que resultou na decisão da Suprema Corte britânica, em abril de 2025, de que "mulher" na Lei da Igualdade significa mulher biológica, e criou um fundo jurídico para custear ações de defesa do que chama de direitos das mulheres baseados no sexo.
O Brasil, nesse contexto, não é periférico, mas um dos "mercados de teste" dessa rede, com um vocabulário que circula entre Londres, Washington e Joinville, transformando-se em votos nas plataformas de figuras como Nikolas Ferreira, Pavanato e Campopiano. A expressão "ideologia de gênero", forjada no Vaticano como instrumento de pânico moral, encontra sua versão tropical e monetizável na "transfobia recreativa", que se manifesta como espetáculo e piada em tribunas. Há uma rede internacional, com recursos financeiros, advogados e fundos jurídicos, trabalhando para que a próxima legislatura já encontre essa discussão pronta, impulsionada por parlamentares com milhões de votos.







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