247 – O presidente da China, Xi Jinping, chegou a Washington nesta quarta-feira (23) para uma visita oficial aos Estados Unidos que terá como principal compromisso as conversas com o presidente Donald Trump na Casa Branca, previstas para quinta-feira (24). Taiwan, a venda de armas norte-americanas à ilha e a disputa pela liderança mundial em inteligência artificial estão entre os principais temas da agenda.

Trump recebeu o presidente chinês na Base Aérea Conjunta Andrews, na região de Washington, informaram agências internacionais de notícias. Não estava prevista uma reunião formal entre os dois líderes nesta quarta-feira, deixando as principais discussões para o encontro do dia seguinte.

A visita ocorre em meio à competição estratégica entre as duas maiores economias do mundo e deverá expor divergências envolvendo segurança, tecnologia e a relação dos Estados Unidos com Taiwan. Segundo autoridades ouvidas pela Reuters, Xi deverá pressionar Trump a respeito das vendas norte-americanas de armas à ilha.

A programação oficial se estende até sexta-feira (25). Além das conversas na Casa Branca, estão previstas uma cerimônia do chá oferecida pela primeira-dama Melania Trump e uma visita ao Arquivo Nacional. Xi e sua mulher devem retornar a Pequim no mesmo dia.

Taiwan entra no centro das negociações

A questão de Taiwan tende a ocupar posição de destaque nas conversas. Pequim considera a ilha parte do território chinês e trata o tema como uma das questões mais sensíveis de sua política externa.

Segundo a Reuters, três fontes familiarizadas com as discussões preparatórias entre Washington e Pequim afirmaram que o governo chinês provavelmente levará à reunião sua interpretação do terceiro dos três comunicados conjuntos firmados entre os dois países, assinado em 1982.

Nesse documento, os Estados Unidos afirmaram que pretendiam reduzir gradualmente as vendas de armas a Taiwan e indicaram que não buscavam manter o fornecimento no longo prazo.

A posição estadunidense, porém, ganhou uma ressalva importante durante o governo de Ronald Reagan. Em memorando anexo, o então presidente afirmou que a disposição dos Estados Unidos para reduzir as vendas estava “condicionada absolutamente ao compromisso contínuo da China com a solução pacífica” das divergências envolvendo Taiwan.

Venda de armas divide Washington e Pequim

A legislação dos EUA prevê o fornecimento a Taiwan dos meios necessários para sua defesa, apesar da inexistência de relações diplomáticas formais entre Washington e Taipé.

O governo taiwanês rejeita as reivindicações de soberania de Pequim. A China, por sua vez, intensificou suas atividades militares no entorno da ilha nos últimos cinco anos, incluindo exercícios militares e testes de mísseis. As Forças Armadas chinesas mantêm operações frequentes na região.

O Diário do Povo, jornal oficial do Partido Comunista da China, afirmou nesta terça-feira que uma condução inadequada da questão de Taiwan poderia levar as relações entre China e Estados Unidos “a uma situação muito perigosa”.

Um funcionário da Casa Branca afirmou que Trump deverá decidir em prazo relativamente curto sobre um novo pacote de vendas de armas a Taiwan. Segundo esse funcionário, durante seu primeiro mandato, Trump autorizou mais vendas de armamentos à ilha do que qualquer outro presidente norte-americano.

O Ministério das Relações Exteriores de Taiwan declarou que acompanha de perto as conversas de alto nível entre Washington e Pequim e mantém uma “comunicação robusta” com os Estados Unidos.

Corrida pela inteligência artificial

Outro eixo estratégico do encontro será a competição pela inteligência artificial. Estados Unidos e China disputam a liderança de um setor considerado fundamental para o desenvolvimento econômico, tecnológico e militar.

Trump tem resumido sua visão sobre essa competição com a frase: “quem vencer na IA, vence”.

Na segunda-feira (21), o presidente estadunidense afirmou nas redes sociais que os Estados Unidos estão à frente da China e declarou que “não iria sufocar o crescimento de algo que será maior do que a Revolução Industrial ou a própria Internet”.

Washington já restringe a exportação para a China de alguns dos chips mais avançados utilizados no desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial. Os Estados Unidos também acusaram desenvolvedores chineses de acessar modelos estadunidenses de IA em grande escala para extrair suas capacidades por meio da técnica conhecida como destilação.

Pequim contesta as críticas e sustenta que a prática é amplamente utilizada no setor, inclusive por empresas norte-americanas. O governo chinês também acusa Washington de tentar monopolizar tecnologias estratégicas e critica iniciativas dos Estados Unidos destinadas a construir alianças tecnológicas que excluam a China.

A preocupação chinesa com a corrida tecnológica também foi explicitada por Chen Yixin, chefe do Ministério da Segurança do Estado da China. Em um artigo, ele alertou para os riscos ao domínio do Partido Comunista caso forças estrangeiras consideradas hostis alcancem capacidades superiores em inteligência artificial.

EUA e China ensaiam mecanismo de cooperação

Apesar da crescente competição tecnológica, os dois governos também discutem formas limitadas de cooperação destinadas a reduzir riscos associados à inteligência artificial.

O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, afirmou no domingo (20), após reunião em Nova York com o vice-primeiro-ministro chinês He Lifeng, que Washington propôs a criação de um novo “mecanismo de notificação” para incidentes envolvendo inteligência artificial capazes de afetar a segurança nacional.

“Acreditamos que, assim como em qualquer atividade transfronteiriça, passar da opacidade para uma maior transparência entre a primeira e a segunda maiores potências de IA do mundo é muito importante”, afirmou Bessent.

A iniciativa sinaliza uma tentativa de estabelecer salvaguardas mínimas enquanto Washington e Pequim intensificam a competição por chips avançados, modelos de inteligência artificial, infraestrutura computacional e influência sobre as regras internacionais para o setor.

A China, paralelamente, busca ampliar sua participação na elaboração de diretrizes globais de segurança para a inteligência artificial e procura aproximar países em desenvolvimento de suas propostas de governança tecnológica.