Enquanto a assistência social enfrenta cortes no orçamento, a Prefeitura de Londrina decidiu gastar R$ 1 milhão em um "estudo técnico" para definir como conceder os serviços de limpeza urbana à iniciativa privada. O contrato, assinado com a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE), foi feito sem licitação, com base em um artigo da nova lei de contratações públicas que permite dispensar o processo quando se trata de instituição "sem fins lucrativos" e de "notória especialização".
Parece sofisticado, mas o cheiro político é forte. A justificativa apresentada é que "o município não tem corpo técnico qualificado" para realizar o estudo. Estranho. Londrina conta com engenheiros ambientais, advogados públicos, especialistas em saneamento e técnicos da própria CMTU — todos pagos com dinheiro público para exatamente isso: planejar, fiscalizar e pensar políticas de limpeza urbana.
Mesmo assim, a Companhia resolveu terceirizar a inteligência, pagando R$ 100 mil por mês durante um ano para uma fundação paulista dizer o que já está escrito no Plano Municipal de Gestão de Resíduos, aprovado em 2022 e elaborado com recursos locais.
A ironia é que a proposta vem justamente de uma gestão que vive pedindo "responsabilidade fiscal" e prometendo cortar gastos. Responsabilidade para quem? Porque quando o dinheiro sai do bolso do povo para financiar consultoria de luxo, a conta não fecha.
A mistura de tecnocracia com terceirização desnecessária desenha o retrato de uma cidade onde o discurso de eficiência serve para justificar tudo, até gastar um milhão de reais para "estudar o lixo" enquanto o serviço público continua sujo, caro e ineficiente.
A pergunta que Londrina precisa fazer não é sobre o modelo de concessão, mas sobre o modelo de gestão. Porque se a própria CMTU diz não ter condições de planejar o setor que administra, o que resta ao cidadão confiar?



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