247 – A tentativa do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), de apresentar um balanço positivo de sua administração esbarrou em metas não cumpridas, déficits estruturais e cronogramas que avançam para além de um eventual segundo mandato durante a entrevista concedida ao SP1, da TV Globo, na terça-feira (15).
A sabatina, conduzida pelo jornalista Alan Severiano e disponibilizada na íntegra pelo Globoplay, passou por educação, segurança, sistema prisional, Sabesp, transportes, enchentes e outros temas da administração estadual. O levantamento que subsidia esta reportagem confrontou as declarações do governador com indicadores e informações oficiais e identificou uma série de discrepâncias entre o discurso apresentado e a situação da gestão paulista.
Um dos casos mais evidentes está na educação. Na campanha de 2022, Tarcísio prometeu que 60% dos estudantes da rede estadual estariam matriculados no ensino integral. Quatro anos depois, pouco mais de 30% estão nessa modalidade. Durante a entrevista, o governador reconheceu que não atingirá a meta e apresentou um novo objetivo: chegar a 40% em um eventual segundo mandato.
Metas do Ideb continuam distantes
O desempenho da educação paulista também mostrou diferença entre melhora dos indicadores e cumprimento dos objetivos estabelecidos. Nos anos finais do ensino fundamental, o Ideb passou de 5,1 em 2023 para 5,2 em 2025. No ensino médio, subiu de 4,2 para 4,3.
Os dois índices avançaram, mas permaneceram abaixo das metas: 5,8 nos anos finais do ensino fundamental e 5,1 no ensino médio.
Tarcísio recorreu ainda ao Pisa para defender o desempenho da educação paulista. A comparação, porém, tem limitações. O programa é uma avaliação internacional de estudantes de 15 anos e não foi concebido para medir isoladamente o resultado de uma administração estadual. Além disso, a edição de 2022 ocorreu antes do início do atual governo paulista.
Outro ponto significativo foi a mudança de posição sobre a utilização das plataformas digitais na rede estadual. Depois de ampliar esse modelo ao longo da gestão, Tarcísio reconheceu na sabatina a necessidade de revê-lo, admitindo problemas relacionados ao excesso de cobranças de exercícios e acessos e seus efeitos sobre a autonomia dos professores.
Efetivo policial permanece abaixo do previsto
Na segurança pública, o governador prometeu continuar realizando concursos para reforçar as polícias Civil e Militar caso seja reeleito. A questão, entretanto, ocorre em meio a um déficit significativo nos quadros das corporações.
Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública citados no levantamento mostram que São Paulo possuía, em 2025, 82.250 policiais militares diante de um efetivo previsto de 93.801. Isso corresponde a 87,7% do quadro. Na Polícia Civil, eram 19.420 profissionais para 24.332 postos previstos, equivalente a 79,8%.
Documentos do Tribunal de Contas do Estado também registram déficits nas estruturas policiais e recomendam medidas para recomposição do efetivo.
Assim, a promessa de novas contratações apresentada pelo governador precisa ser considerada ao lado da quantidade de vagas que continuaram desocupadas ao fim de quase quatro anos de administração.
Presídios: promessa de novas unidades encontra sistema superlotado
Outro contraste apareceu na situação penitenciária. Tarcísio anunciou que pretende construir dez novos presídios e classificou o sistema como “bem controlado”.
Dados reunidos pelo Tribunal de Contas, porém, mostram problemas estruturais relevantes. Entre as unidades examinadas pelo órgão, 74,7% funcionavam acima da capacidade. Em 68,13%, não havia bloqueadores de sinais de celulares, enquanto 72% estavam sem Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros vigente.
A promessa dos dez presídios foi feita durante a entrevista de terça-feira (15), quando o governador também anunciou a intenção de continuar promovendo concursos para as forças de segurança.
Obras prometidas ultrapassam horizonte de 2030
No transporte ferroviário, outra diferença surgiu entre o horizonte apresentado pelo candidato e os cronogramas dos próprios projetos.
Ao falar das entregas previstas até 2030, Tarcísio mencionou empreendimentos cuja conclusão está programada para depois desse prazo.
A extensão da Linha 2-Verde até Guarulhos e a ampliação da Linha 13-Jade até Bonsucesso estão previstas para 2032. Já a extensão da Linha 12-Safira até Suzano tem previsão para 2031.
Na prática, parte das obras incluídas na perspectiva de um eventual segundo mandato só deverá ser concluída, segundo os cronogramas atualmente divulgados, depois do período correspondente aos próximos quatro anos.
Tarcísio admite problema na concentração das concessões
Um dos pontos de maior mudança no discurso do governador apareceu justamente em uma das principais vitrines de sua administração: as concessões.
Tarcísio reconheceu que a concentração da operação ferroviária nas mãos de poucas empresas pode ser problemática e admitiu considerar a revisão de contratos. Também reconheceu o desempenho da estatal Metrô ao defender a permanência de determinadas operações sob controle público.
A manifestação ganha relevância porque as desestatizações e concessões foram colocadas no centro da política estadual durante seu mandato.
O episódio recente das linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade mostrou os riscos envolvidos nesse processo. A CPTM precisou reassumir temporariamente a operação depois de problemas ocorridos poucos dias após a transferência para a concessionária Trivia Trens. A crise levou o Ministério Público de São Paulo a abrir investigação, e o próprio Tarcísio chegou a ameaçar anular a concessão.
Casa Paulista mistura moradias e subsídios
Na habitação, o governador classificou o Casa Paulista como o maior programa habitacional da história do Estado. A dimensão do programa, contudo, depende do critério adotado para contabilizar os beneficiários.
O governo inclui entre os atendimentos tanto unidades habitacionais quanto famílias contempladas por subsídios e cartas de crédito. São modalidades que podem facilitar o acesso à casa própria, mas não correspondem à mesma coisa que a construção direta de imóveis pelo Estado.
A comunicação oficial citada no levantamento registra mais de 80 mil famílias atendidas, enquanto a promessa apresentada na campanha de 2022 previa 200 mil moradias até o final de 2026.
Dado sobre esgoto em Guarulhos remonta a 2017
Na Sabesp, outro ponto exige atenção à série histórica.
Ao defender os resultados no saneamento, Tarcísio mencionou que Guarulhos tinha somente 2% do esgoto tratado. O percentual, entretanto, corresponde a 2017, anos antes do início de seu governo.
A Sabesp assumiu a operação de saneamento do município em 2019. Em dezembro de 2023, o tratamento estava em aproximadamente 18%. Em 2025, alcançou cerca de 40%, e os dados citados no levantamento para 2026 apontam 48%. A coleta, por sua vez, passou de 91% para 96% entre dezembro de 2023 e dezembro de 2025.
O dado de 2%, portanto, retrata a situação de quase uma década atrás e não o cenário encontrado pelo atual governador quando assumiu o Palácio dos Bandeirantes.
Recorde de cirurgias não encerrou problema das filas
Na saúde, Tarcísio destacou o crescimento do número de cirurgias, que teria passado de aproximadamente 750 mil para 1,5 milhão.
São Paulo registrou efetivamente volume recorde de cirurgias eletivas em 2025. O crescimento da produção, entretanto, não permite concluir, por si só, que houve redução equivalente da demanda reprimida.
Auditoria do Tribunal de Contas da União sobre dados de 2023 a 2025 identificou dificuldades no monitoramento e na integração dos registros. O órgão também apontou que somente uma parcela reduzida das cirurgias estava registrada na Rede Nacional de Dados em Saúde, o que dificulta a avaliação abrangente das filas.
Fiscalização das concessões também enfrenta limitações
A expansão das concessões coloca ainda sob pressão a capacidade fiscalizatória do Estado.
No caso da Artesp, responsável pela regulação do transporte rodoviário, o levantamento aponta uma estrutura reduzida diante da dimensão dos serviços regulados e dificuldades para transformar autuações em multas efetivamente cobradas. O governo atribui parte do problema à morosidade judicial.
O conjunto de episódios mostra diferentes tipos de distância entre a apresentação política da gestão e seus indicadores concretos: uma meta de ensino integral abandonada e substituída por outra menor; resultados educacionais que melhoraram, mas não alcançaram os objetivos previstos; efetivos policiais incompletos; presídios superlotados; obras com conclusão posterior a 2030; números habitacionais que agregam modalidades distintas; e um dado de saneamento anterior ao próprio governo utilizado para dimensionar os avanços atuais.
A entrevista também mostrou mudanças de posição. Diante dos problemas enfrentados por serviços concedidos, Tarcísio passou a admitir revisão de contratos e os riscos da concentração empresarial, ao mesmo tempo em que reconheceu resultados de operações mantidas pelo poder público.
A sabatina ocorreu em plena campanha pela reeleição. Por isso, a comparação entre aquilo que foi prometido em 2022, o que efetivamente foi entregue durante o mandato e as novas metas apresentadas para os próximos quatro anos passa a integrar o conjunto de informações disponíveis para que o eleitor avalie a administração paulista.
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Título: Sabatina expõe contradições da gestão Tarcísio em SP
Subtítulo: Dados oficiais confrontam promessas sobre ensino, segurança, presídios, concessões, moradia e saneamento
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Legenda para redes sociais: Sabatina de Tarcísio de Freitas no SP1 colocou frente a frente o discurso do governador e indicadores de sua administração. Metas não cumpridas, déficit policial, superlotação prisional, obras previstas para depois de 2030 e problemas nas concessões estão entre os pontos que exigem contextualização






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