247 – O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, rejeitou nesta terça-feira (22), durante seu discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas, qualquer tentativa de estabelecer um sistema internacional de controle da inteligência artificial e deixou claro que enxerga a tecnologia como uma disputa estratégica na qual Washington precisa superar a China.
“Os Estados Unidos também rejeitam totalmente qualquer tentativa de criar um esquema globalista para controlar a inteligência artificial”, afirmou Trump. A declaração foi destacada pela própria Casa Branca ao divulgar os principais pontos do pronunciamento presidencial.
Trump foi além e afirmou que não pretende limitar o avanço da tecnologia. Segundo ele, quem vencer a corrida da inteligência artificial será o vencedor da nova revolução tecnológica. O presidente disse ainda que os Estados Unidos estão à frente da China e que pretende manter essa posição.
“Quem vencer a IA — e agora digo, quem vencer a superinteligência — vence”, declarou. Trump afirmou que não pretende “sufocar o crescimento” de uma tecnologia que, segundo ele, poderá ter impacto superior ao da Revolução Industrial ou da própria internet.
EUA se afastam de governança global
A posição explicitada por Trump contrasta com iniciativas internacionais que procuram estabelecer mecanismos multilaterais de governança para uma tecnologia cujo desenvolvimento e impactos ultrapassam as fronteiras nacionais.
O debate internacional envolve questões como segurança, privacidade, emprego, propriedade intelectual, utilização militar, desinformação, concentração econômica e a possibilidade de sistemas cada vez mais autônomos.
A postura da Casa Branca também evidencia uma disputa de modelos com a China. Enquanto Washington privilegia a liderança tecnológica americana e articulações com países e empresas considerados parceiros confiáveis, Pequim vem defendendo maior cooperação internacional e modelos mais abertos de desenvolvimento e governança tecnológica.
Para o especialista Ettore Arpini, a posição apresentada por Trump caminha em direção oposta às articulações internacionais que procuram construir uma governança compartilhada para a inteligência artificial. Segundo ele, outros países vêm discutindo formas de cooperação entre potências médias para evitar que as regras da nova tecnologia sejam determinadas exclusivamente pelas maiores potências.
O tema divide inclusive o próprio setor tecnológico americano. Empresas e pesquisadores vêm alertando para riscos relacionados ao rápido avanço dos sistemas de IA. Na véspera do discurso de Trump, empresas como OpenAI, Anthropic e Google defenderam maior coordenação internacional para avaliar capacidades e riscos dos sistemas mais avançados.
Trump muda nome para “superinteligência”
O presidente americano aproveitou o discurso na ONU para anunciar também uma mudança de terminologia. Segundo ele, documentos oficiais dos Estados Unidos passarão a utilizar a expressão “superinteligência” em lugar de “inteligência artificial”.
Trump justificou a decisão afirmando que a palavra “artificial” transmite a impressão de algo falso.
“Bem-vindos ao novo mundo da superinteligência”, afirmou.
A decisão chama atenção porque “superinteligência” já possui um significado específico no campo científico. O termo costuma ser empregado para descrever sistemas hipotéticos capazes de superar amplamente as capacidades humanas em praticamente todas as atividades cognitivas. Os atuais sistemas de inteligência artificial ainda não atingiram esse patamar.
Para Arpini, a alteração terminológica pode criar mais confusão do que esclarecimento. Em sua avaliação, a questão fundamental não é o nome atribuído à tecnologia, mas suas capacidades efetivas, seu grau de autonomia, sua governança e seus impactos sobre a sociedade.
Debate sobre o próprio conceito de inteligência
A discussão também alcança o uso da palavra “inteligência”. Cientistas como o neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis questionam a comparação entre sistemas computacionais e a inteligência humana, argumentando que a terminologia contribuiu para construir uma poderosa narrativa de marketing em torno da tecnologia.
Independentemente da definição, a dimensão econômica e geopolítica da IA cresce rapidamente. Os investimentos em infraestrutura computacional, data centers, chips e energia atingiram níveis extraordinários, enquanto integrantes da própria indústria alertam para o risco de que as expectativas de retorno não acompanhem o ritmo de expansão dos investimentos.
Trump, porém, deixou claro na ONU que sua prioridade será acelerar, e não restringir, essa corrida. Disse que eventuais abusos poderão ser enfrentados pelo Departamento de Justiça e por outras instituições americanas, mas reiterou que o governo pretende “encorajar” a tecnologia em vez de contê-la.
A mensagem apresentada pelo presidente americano coloca assim a inteligência artificial no centro de uma disputa mais ampla sobre a organização do poder mundial. De um lado está a busca por mecanismos internacionais de governança de uma tecnologia global; de outro, a visão defendida por Trump de que a liderança tecnológica deve permanecer fundamentalmente uma questão de soberania e competição entre Estados.
Na formulação mais direta utilizada pelo próprio presidente dos Estados Unidos, a nova corrida tecnológica tem uma regra simples: quem dominar a inteligência artificial — ou, na expressão que Trump agora prefere, a “superinteligência” — vence.







Comentários
Seja o primeiro a comentar.