247 – A Índia procura consolidar os BRICS como uma plataforma de fortalecimento do Sul Global, mas trabalha para impedir que o agrupamento se transforme em uma coalizão explicitamente antiocidental. A avaliação é do professor Harsh V. Pant, vice-presidente do Observer Research Foundation (ORF), de Nova Déli, professor de Relações Internacionais do King’s India Institute, do King’s College London, e diretor honorário da Delhi School of Transnational Affairs, da Universidade de Déli.

Em análise sobre a cúpula dos BRICS realizada em 2026 em Nova Déli, Pant sustenta que a expansão do agrupamento aumentou seu peso econômico, demográfico e diplomático, mas também tornou mais complexa a construção de consensos. Para ele, essa é a principal contradição dos BRICS em sua nova etapa: quanto maior e mais representativo se torna, maior é também sua diversidade interna.

O especialista destaca que a posição indiana tem sido marcada pela defesa de um multilateralismo pragmático, orientado ao desenvolvimento. Nova Déli pretende ampliar a margem de manobra das potências emergentes sem abandonar o princípio da autonomia estratégica.

De sigla econômica a plataforma política

Pant recorda que os BRICS nasceram a partir da formulação econômica criada por Jim O’Neill em 2001 para Brasil, Rússia, Índia e China. A cooperação política começou em 2006, e a primeira cúpula de líderes ocorreu em 2009. A entrada da África do Sul transformou posteriormente os BRIC em BRICS.

A agenda inicial estava concentrada na ampliação da representação das economias emergentes na governança mundial, na reforma das instituições de Bretton Woods e no fortalecimento da cooperação Sul-Sul. A criação do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) e do Arranjo Contingente de Reservas deu dimensão institucional a esse projeto.

A grande transformação, segundo Pant, ocorreu depois da cúpula de Joanesburgo de 2023, com a expansão do agrupamento. Egito, Etiópia, Irã e Emirados Árabes Unidos ingressaram em 2024, a Indonésia em 2025, enquanto a Arábia Saudita ganhou espaço crescente. A criação da categoria de países parceiros ampliou ainda mais o alcance dos BRICS.

O resultado é um agrupamento muito maior, mas que, segundo Pant, se parece cada vez menos com um bloco geopolítico convencional.

Índia não quer BRICS contra o Ocidente

Para o professor, um dos aspectos mais relevantes da cúpula de Nova Déli foi justamente aquilo em que os BRICS decidiram não se transformar. Apesar das críticas crescentes a aspectos da ordem internacional liderada pelo Ocidente, o agrupamento não se definiu como uma aliança antiocidental.

Pant considera essa distinção fundamental. Em sua avaliação, os BRICS funcionam cada vez mais como instrumento para diversificar o poder global, mas ainda não constituem uma arquitetura alternativa de segurança. A Índia desempenha papel importante na preservação dessa característica.

A estratégia indiana consiste em estimular áreas de cooperação prática, como infraestrutura pública digital, sistemas de pagamento, financiamento em moedas locais, tecnologia, saúde e desenvolvimento.

Pant destaca particularmente a experiência indiana com infraestruturas digitais, como UPI e Aadhaar. Para ele, essa política expressa uma ambição mais ampla: fazer com que os países do Sul Global deixem de ser apenas receptores de modelos tecnológicos produzidos no exterior e passem também a criar soluções institucionais capazes de ser adotadas em larga escala.

O objetivo seria transformar os países em desenvolvimento de meros seguidores das regras internacionais em participantes ativos de sua formulação. Para a Índia, porém, isso não exige destruir o sistema multilateral existente, mas reformá-lo.

Índia como ponte

Pant identifica no peso econômico da China um dos principais desafios estruturais dos BRICS. A ampliação do agrupamento não reduziu a predominância econômica chinesa e tornou ainda mais importante administrar essa assimetria.

Segundo ele, a resposta indiana não tem sido nem o confronto nem a acomodação, mas a defesa do consenso, do desenvolvimento e da autonomia estratégica.

Essa estratégia também explica a presença simultânea da Índia em diferentes arranjos internacionais. Nova Déli participa do Quad, do G20 e de outras articulações com países ocidentais e asiáticos, ao mesmo tempo em que busca ampliar sua influência entre as nações em desenvolvimento.

Nesse contexto, os BRICS funcionam para a Índia menos como uma aliança e mais como um instrumento de diversificação estratégica.

A cúpula de Nova Déli reforçou esse papel. Pant cita o diálogo entre Narendra Modi e Xi Jinping, o retorno do presidente chinês à Índia depois de sete anos e os esforços indianos para facilitar o entendimento entre Irã e Emirados Árabes Unidos. A capacidade de manter relações com diferentes polos de poder permite à Índia desempenhar um papel que poucos integrantes dos BRICS conseguem reproduzir: funcionar como ponte entre campos concorrentes.

Expansão também cria limites

Pant alerta, porém, que o futuro dos BRICS dependerá menos do número de integrantes do que de sua capacidade de transformar declarações políticas em resultados institucionais.

A expansão reuniu grandes mercados, produtores de energia, países detentores de minerais críticos e enormes populações. Ao mesmo tempo, cada novo integrante acrescenta interesses próprios e possíveis obstáculos ao consenso.

Os membros dos BRICS possuem posições diferentes sobre conflitos geopolíticos, modelos econômicos e relações com as grandes potências. Alguns permanecem profundamente integrados ao sistema financeiro ocidental mesmo enquanto defendem maior utilização das moedas nacionais. Essas diferenças tornam o agrupamento, segundo Pant, mais apropriado para a cooperação seletiva em áreas de interesse comum do que para uma atuação geopolítica uniforme.

Nesse cenário, o Novo Banco de Desenvolvimento ganha importância especial. Pant defende maior capitalização da instituição, ampliação dos empréstimos em moedas locais e fortalecimento da carteira de projetos de desenvolvimento. Sistemas interoperáveis de pagamentos, padrões digitais, cooperação tecnológica e cadeias de suprimentos resilientes também poderiam dar aos BRICS resultados concretos para empresas e cidadãos.

Uma aposta no Sul Global

Para Pant, os BRICS continuarão sendo uma expressão importante da transição para uma ordem internacional mais multipolar. Isso, porém, não significa necessariamente a construção de uma ordem alternativa coerente em oposição ao Ocidente.

A predominância econômica chinesa, as divergências entre os integrantes, as sanções e tarifas ocidentais, os conflitos regionais e a permanência do dólar no centro do sistema financeiro internacional estabelecem limites ao alcance do agrupamento.

A aposta indiana é que os BRICS possam ampliar o espaço estratégico disponível ao Sul Global sem se converter em mais um instrumento da rivalidade entre grandes potências. Para isso, segundo Pant, o agrupamento precisa permanecer aberto, pragmático e orientado ao desenvolvimento.

A Índia, nessa visão, não precisa que os BRICS se transformem em uma alternativa ao Ocidente. Precisa que sejam úteis aos países que historicamente tiveram pouca influência sobre as regras da governança mundial.

O teste decisivo será transformar o crescente peso econômico e político dos BRICS em instituições, recursos e resultados concretos. Para Pant, é nesse processo que a Índia pretende exercer seu papel: construir pontes entre campos concorrentes, resistir à política de blocos e converter a ideia de fortalecimento do Sul Global em uma agenda prática de cooperação.