247 – Durante participação na TV 247, Paulo Nogueira Batista Jr. fez um diagnóstico alarmante sobre as pressões geopolíticas que cercam a América Latina e os rumos da disputa política doméstica no Brasil. Ao analisar o cenário eleitoral e a postura da extrema direita no país, o economista afirmou que a ascensão de um projeto subserviente aos interesses dos Estados Unidos representaria a liquidação do Brasil enquanto nação soberana.

“Nós temos de um lado um nacionalista moderado e, de outro, um entreguista — só falta dizer ‘sou entreguista’ —, que dá todas as demonstrações de que quer se alinhar estritamente ao governo Trump. Se o Brasil elege um presidente desse tipo, nós estamos liquidados como nação soberana”, enfatizou.

O economista chegou a ironizar que, diante de um desfecho dessa natureza, teria de publicar uma nova edição de sua principal obra política mudando o título para “Sonho de uma Noite de Verão”. Ainda assim, ponderou com base no pensamento de Celso Furtado: “Nenhuma derrota é definitiva. O Brasil sobrevive até mesmo a Jair Bolsonaro, até mesmo a Flávio Bolsonaro, a Michel Temer e a Fernando Collor”.

O “plágio” mais festejado

O ponto de partida da conversa foi a repercussão do discurso do presidente Lula, que recorreu textualmente à tese central de Paulo Nogueira ao declarar internacionalmente que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”.

Bem-humorado, o economista celebrou a apropriação presidencial da frase que dá nome ao seu livro publicado em 2019 — no qual reúne memórias de sua atuação nas instituições financeiras internacionais e analisa a inserção geopolítica brasileira:

“Vou te dizer que fiquei muito contente de ouvir o Lula dizer isso. Foi o ‘plágio’ de que mais gostei na vida. Nunca gostei de plágio, mas esse aí achei maravilhoso”, disse.

Doutrina Monroe recrudescida e cobiça territorial

Para Paulo Nogueira, a declaração de Lula ganha relevância diante de uma ofensiva hegemônica norte-americana que ele classifica como inédita em tempos recentes. Segundo ele, setores dominantes nos Estados Unidos retomaram com virulência a ambição de controle irrestrito sobre o continente.

“Nunca a nossa soberania esteve tão ameaçada como está hoje. Os americanos estão numa agressividade que não tem precedente recente. Botaram na cabeça que o hemisfério ocidental, da Groenlândia até a Patagônia, é a área deles, e que ninguém vai contestar a hegemonia de Washington. Esse projeto só estará completo se o Brasil for dominado — e a maneira mais fácil de dominar é elegendo um vassalo, um Milei brasileiro”, avaliou.

Dissuasão, defesa e lições regionais

Ao projetar os desafios de um projeto nacional continuado, Paulo Nogueira sustentou que lideranças experientes sabem articular alianças multilaterais — consolidando posições no Brics e expandindo pontes diplomáticas —, mas ressaltou que a diplomacia desarmada é insuficiente perante a cobiça global sobre recursos naturais estratégicos.

O economista defendeu com ênfase a necessidade premente de investimentos na defesa nacional e capacidade de dissuasão:

  • Recursos estratégicos e vulnerabilidade: O Brasil concentra terras raras, matriz energética privilegiada, água doce e ampla biodiversidade; sem meios de autodefesa, transforma-se em alvo fácil de pressões desestabilizadoras.
  • A máxima de defesa: Resgatando o adágio latino si vis pacem, para bellum (“se queres a paz, prepara-te para a guerra”), Paulo Nogueira observou que ser pacifista não equivale a ser vulnerável.
  • Lições externas: Apontou o contraste internacional entre países que desenvolveram forte capacidade de dissuasão e resistência histórica contra agressões externas e o contexto sul-americano, lembrando que a estabilidade interna histórica sem conflitos em solo pátrio desde o século XIX gerou uma falsa sensação de perenidade da paz.

“É uma pena ter que dizer isso, pois o ideal seria investir tudo no combate à fome e à miséria. Mas a verdade é que o Brasil é um imenso objeto de cobiça. Se este grande país não souber e não puder se defender, será um convite permanente à agressão. O Brasil terá de fazer um verdadeiro curso intensivo de sobrevivência estratégica e defesa nacional”, concluiu.