247 – Depois de séculos de colonialismo, exploração econômica e interferências externas, a África atravessa uma transformação que pode alterar profundamente seu lugar no sistema internacional. O continente amplia seus mecanismos próprios de integração, diversifica suas parcerias e busca transformar recursos naturais, população e posição geográfica em instrumentos de desenvolvimento e autonomia.

A análise é da Sputnik Brasil, que ouviu especialistas sobre o processo pelo qual a África deixa de ser representada apenas como objeto da disputa entre grandes potências e passa a exercer de maneira mais organizada sua condição de sujeito das relações internacionais.

Para Carolina Ferreira Galdino, doutora e mestre em relações internacionais pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas e coordenadora do Núcleo de Estudos sobre África e Relações Étnico-Raciais (NEARE), da PUC-SP, essa transformação ganhou força principalmente a partir do começo do século XXI.

Um marco fundamental foi a criação da União Africana, em 2002, que ampliou os espaços institucionais para que os próprios países do continente discutissem seus problemas e construíssem respostas comuns.

“Sujeito sempre foi, mas a questão é a forma como sempre foi representada e sempre foi invisibilizada na arena internacional”, afirma Galdino.

Integração para ampliar a autonomia

Além da União Africana, mecanismos como a Área de Livre Comércio Continental Africana (AfCFTA) procuram ampliar a integração econômica e reduzir a dependência de relações estabelecidas exclusivamente com parceiros externos.

A Agenda 2063, estratégia de longo prazo da União Africana, também expressa essa mudança. A proposta é construir um continente capaz de estabelecer suas próprias prioridades econômicas, sociais e políticas, deixando de ser percebido apenas como receptor de ajuda internacional para se apresentar como parceiro estratégico.

A integração torna-se ainda mais importante diante da intensificação da disputa internacional pela África.

China, Estados Unidos, Rússia e União Europeia procuram ampliar sua presença no continente. Ao mesmo tempo, Índia, Turquia e países do Golfo também desenvolvem relações econômicas e políticas cada vez mais relevantes com governos africanos.

Nem China, nem Estados Unidos: mais opções

Para Gustavo de Carvalho, chefe de programa do Instituto Sul-Africano de Assuntos Internacionais (SAIIA), a multiplicação de parceiros pode aumentar a margem de negociação dos países africanos.

Em vez de estabelecer uma relação exclusiva com determinada potência, diferentes governos procuram diversificar seus parceiros de acordo com seus próprios interesses.

Galdino define essa estratégia como uma “equidistância pragmática”: um país pode aprofundar suas relações comerciais com uma potência e, simultaneamente, desenvolver cooperação em segurança com outra.

A estratégia, porém, apresenta um desafio fundamental: evitar que a redução da dependência em relação às antigas potências coloniais resulte simplesmente em uma nova forma de dependência.

Para Carvalho, a diversificação precisa ser acompanhada pelo fortalecimento da integração econômica e produtiva dentro do próprio continente.

China e Rússia ampliam presença

A China consolidou nas últimas décadas uma presença econômica de longo prazo na África e tornou-se um importante parceiro comercial de numerosos países. A Rússia mantém uma atuação mais concentrada em determinadas áreas, sobretudo política e segurança.

Outros atores também avançam.

Índia e países do Golfo vêm ampliando suas relações com governos africanos, enquanto a França perdeu influência em algumas regiões, especialmente no Sahel.

Na avaliação de Carvalho, esse movimento não precisa ser interpretado simplesmente como uma escolha africana entre blocos rivais.

“A diversificação de atores, em grande medida, é por si só uma busca por autonomia”, afirma.

Juventude pode transformar economia africana

Outro elemento decisivo para o futuro do continente é sua população jovem e em expansão.

Esse crescimento demográfico pode ampliar o mercado consumidor, aumentar a disponibilidade de trabalhadores e tornar a África ainda mais atraente para investimentos. Mas transformar população em desenvolvimento dependerá da capacidade de formar capital humano.

Galdino destaca que o tamanho da população, isoladamente, não assegura competitividade.

“Então o aumento da competitividade do continente africano não está atrelado à densidade demográfica. Está atrelado aos recursos adequados que vão ser mobilizados para formar quadros que possam pensar e implementar medidas que se coadunem aos interesses das populações africanas”, afirma.

Educação, engenharia, tecnologia, inovação e empreendedorismo tornam-se, portanto, elementos centrais dessa estratégia.

Sem investimentos suficientes em formação profissional e geração de oportunidades, o crescimento populacional poderá deixar de produzir o chamado dividendo demográfico e aprofundar problemas estruturais.

Minerais estratégicos elevam poder de negociação

A África também ocupa posição privilegiada na nova disputa mundial pelos minerais necessários às indústrias de alta tecnologia e à transição energética.

O continente possui reservas relevantes de lítio, cobalto, cobre, urânio e terras raras, entre outros recursos que se tornaram estratégicos para as grandes potências.

A questão, segundo os especialistas ouvidos pela Sputnik, é impedir que essa riqueza reproduza o padrão histórico de exportação de matérias-primas sem desenvolvimento industrial correspondente.

Para Carvalho, os minerais africanos precisam ser considerados estratégicos antes de tudo para a própria África.

“Dentro do continente, a visão que deve ser central nesse processo é uma visão de que esses minerais têm de ser críticos ao próprio processo de desenvolvimento africano”, afirma.

Da mineração à industrialização

O verdadeiro salto econômico dependerá, portanto, da capacidade dos países africanos de processar seus recursos naturais, agregar valor e construir cadeias industriais dentro do continente.

A República Democrática do Congo e a Zâmbia, grandes produtoras de minerais, exemplificam o aumento desse poder de negociação. Projetos de infraestrutura como o Corredor do Lobito, que conecta regiões produtoras ao litoral de Angola, convivem com rotas alternativas apoiadas pela China em direção ao Oceano Índico.

Essa competição pode aumentar as opções disponíveis aos governos africanos. Mas o resultado dependerá da capacidade de transformar a riqueza mineral em industrialização, tecnologia, empregos e desenvolvimento interno.

A transformação em curso, portanto, vai além da disputa entre China, Estados Unidos, Rússia e Europa pela influência sobre o continente. O ponto central é saber até que ponto a própria África conseguirá estabelecer as condições dessa disputa.

Depois de séculos em que o continente foi frequentemente representado como território a ser conquistado, explorado ou influenciado por poderes externos, o desafio do século XXI é transformar integração, juventude, recursos naturais e diversificação diplomática em instrumentos de um projeto africano de desenvolvimento e autonomia.