247 – O advogado Walfrido Warde, que integrou a defesa do empresário Daniel Vorcaro até janeiro de 2026, sugeriu ao então controlador do Banco Master uma iniciativa jurídica internacional para tentar retirar o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes das sanções da Lei Magnitsky. De acordo com reportagem de Malu Gaspar, de O Globo, publicada nesta quarta-feira (23), investigadores encontraram as mensagens no celular de Vorcaro. Warde propôs levar o caso ao sistema interamericano de direitos humanos e afirmou possuir uma “estratégia matadora” para auxiliar o magistrado.
O teor das conversas foi divulgado após o ministro do STF André Mendonça retirar o sigilo de uma parte das investigações sobre as fraudes financeiras envolvendo o Banco Master. A decisão foi anunciada pelo magistrado no último dia 10.
A conversa entre Walfrido Warde e Vorcaro aconteceu em 1º de agosto de 2025, dois dias depois de o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos incluir Moraes na lista de sanções do programa Global Magnitsky. O governo do presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou a medida em 30 de julho daquele ano e atribuiu ao ministro práticas que, na avaliação de Washington, configuravam violações de direitos humanos. Essas acusações representavam a posição oficial do governo estadunidense.
Os novos detalhes foram divulgados em um contexto no qual o STF analisa a Petição 16662 (sobre as relações entre Moraes e o Master). Em 15 de setembro, o ministro Flávio Dino pediu vista durante a análise.
Naquele momento, os ministros da Corte examinavam uma questão de ordem sobre a possibilidade de analisar conjuntamente dois procedimentos relacionados ao caso Master. Um deles era sobre Moraes e o outro sobre a forma como outro ministro – André Mendonça – conduz investigações referentes às fraudes envolvendo o banco de Vorcaro.
O caso de Mendonça estava previsto para ser analisado a partir desta quarta (23), mas foi adiado e não há data marcada para a sessão.
Os diálogos
Walfrido Warde abordou as sanções contra Moraes em uma conversa com o ex-banqueiro. “Acho que nós deveríamos ajudar na defesa do seu amigo Alexandre lá nos EUA. Eu, além das relações, tenho uma estratégia matadora para ajudá-lo na corte de direitos humanos”, escreveu Warde a Vorcaro.
Vorcaro respondeu: “Vamos. Vou falar c ele.” Na sequência, Warde afirmou que poderia contribuir para a iniciativa sem pedir contrapartida e apresentou a tese política que pretendia sustentar.
“Não há alguém aqui que possa ajudar mais do que nós. Quero nada em troca. Só ajudar mesmo. O presidente americano está atacando, com uso da lei e dos seus poderes de presidente, um juiz togado brasileiro para viabilizar a eleição, no Brasil, de um seu subordinado, que é Jair Bolsonaro, acusado de golpe de Estado e processado na Suprema Corte do Brasil.”
A afirmação sobre a finalidade das sanções partiu de Warde e expressava a interpretação do advogado naquele momento. Ao anunciar a inclusão de Moraes na lista, o Departamento do Tesouro alegou que o ministro havia autorizado prisões preventivas arbitrárias e restringido a liberdade de expressão. O órgão também citou o processo contra Jair Bolsonaro entre os fundamentos políticos apresentados pelo governo dos EUA.
Warde sugeriu recorrer ao sistema interamericano
Warde pretendia sustentar que Moraes sofria violação de direitos fundamentais por causa da aplicação da Lei Magnitsky. Em um áudio localizado pelos investigadores, o advogado também propôs reunir dez juristas para respaldar essa interpretação.
Warde afirmou que pretendia direcionar a iniciativa contra o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e declarou: “A gente iria pra Corte Interamericana de Direitos Humanos contra o Trump na [pessoa] física”.
Poucos minutos depois dessas mensagens, Warde mudou o assunto da conversa com Vorcaro e passou a tratar de temas financeiros relacionados ao Banco Master. O governo norte-americano manteve Moraes na lista entre 30 de julho e 12 de dezembro de 2025.
Na segunda data, o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (Ofac), vinculado ao Tesouro, retirou Moraes da relação de pessoas sancionadas. O governo dos Estados Unidos também retirou Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro, e o Instituto Lex da lista. Um relatório oficial sobre a aplicação do Global Magnitsky em 2025 registra as datas de inclusão e retirada de Moraes.
Caso Master ampliou análise sobre contatos de Vorcaro
Um relatório da PF reuniu 52 registros vinculados a um contato salvo no telefone do banqueiro como “Alexandre de Moraes BRASILIA”. Moraes contesta a metodologia adotada pelos investigadores. O ministro afirma que a PF tratou anotações encontradas no aplicativo de notas do iPhone de Vorcaro como se representassem mensagens enviadas a ele e sustenta que 47 das 52 notas não aparecem em conversas do WhatsApp.
As investigações também identificaram documentos relacionados ao escritório Barci de Moraes, comandado pela advogada Viviane Barci de Moraes. O material inclui um contrato que previa pagamentos de R$ 3,6 milhões por mês durante 36 meses, o que alcançaria cerca de R$ 129 milhões em caso de execução integral. A Polícia Federal encontrou o documento no celular de Vorcaro, segundo reportagens publicadas sobre o caso.
Outro ponto do relatório da Polícia Federal trata das configurações do WhatsApp. Segundo a corporação, em 17 de setembro de 2025 o contato identificado no aparelho de Vorcaro como “Alexandre de Moraes BRASILIA” passou a usar mensagens temporárias com prazo de 24 horas para exclusão automática das comunicações.
“Em 17/09/2025, há o registro de que o contato ‘Alexandre de Moraes BRASILIA’ passa a adotar, no chat com Daniel Vorcaro, uma configuração padrão para mensagens temporárias em novas conversas, estabelecendo o prazo de 24 horas para a exclusão automática das comunicações”, registra o relatório da PF reproduzido pelo SBT News.
Sanções antecederam condenação de Bolsonaro
A conversa entre Warde e Vorcaro ocorreu antes do julgamento que condenou Jair Bolsonaro. Em setembro de 2025, a Primeira Turma do STF resultou na condenação do ex-mandatário a 27 anos e três meses de prisão pelos crimes de organização criminosa armada, abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado ao patrimônio público e deterioração de patrimônio tombado. O governo estadunidense retirou Moraes da lista do Global Magnitsky em 12 de dezembro de 2025.
No meio político, lideranças do campo progressista defendem independência das investigações envolvendo a relação de ministros do STF com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Em paralelo às repercussões sobre a relação entre ministros do STF e o empresário, Moraes foi alvo de ataques da extrema direita bolsonarista nos últimos anos devido à atuação do magistrado em investigações sobre ações golpistas.
Além de Bolsonaro, outras 28 pessoas foram condenadas na investigação sobre a tentativa de golpe, um plano elaborado no governo bolsonarista, para impedir a posse do atual presidente Lula. Moraes também atuou no inquérito dos atos golpistas do 8 de Janeiro de 2023, quando apoiadores de Bolsonaro invadiram a Praça dos Três Poderes, em Brasília (DF). O STF determinou mais de 1,4 mil condenações nessa investigação.







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