Em Londrina, o conceito do "pão e circo" ganhou contornos bizarros nos últimos anos. A população assistiu atônita aos vereadores gastarem energia, tempo e dinheiro público debatendo a proibição de crepes em formato de órgãos genitais ou discutindo indicações políticas referentes a São Paulo. Enquanto os holofotes se voltavam para a moralidade das guloseimas, uma das maiores transferências de patrimônio público da história do Paraná acontecia nas sombras, sem a devida fiscalização do mesmo legislativo.

A finada Sercomtel, outrora pioneira e símbolo da independência tecnológica da cidade, foi entregue na bacia das almas. O que foi vendido como a salvação da empresa agora se revela como o possível epicentro de uma intrincada engenharia financeira.


A Entrega do Patrimônio


A privatização da Sercomtel, chancelada pela prefeitura de Londrina e com a bênção do Governo Ratinho Jr. (que entregou a Copel Telecom no mesmo pacote), teve como grande vencedor o Fundo Bordeaux, um veículo de investimentos ligado ao empresário Nelson Tanure.


A promessa era de modernização, com a injeção de R$ 130 milhões para reerguer a estatal e transformá-la no pilar da Ligga Telecom. No entanto, relatórios internos e investigações recentes sugerem que o município comprou uma ilusão contábil.


Os Tentáculos do Escândalo "Master"

A verdadeira face do negócio começou a ruir com a recente derrocada do Banco Master. Com a liquidação extrajudicial da instituição pelo Banco Central no final de 2025 e a prisão do banqueiro Daniel Vorcaro, o rastro do dinheiro desviado apontou de volta para Londrina. Investigações e depoimentos na CPI em Brasília trouxeram à tona fatos que conectam a privatização paranaense à fraude nacional:


  • O "Cheque Sem Fundo": Suspeita-se que os R$ 130 milhões prometidos pelo Fundo Bordeaux nunca entraram efetivamente no caixa da Sercomtel para investimentos. Nos balanços da operadora, o dinheiro entrava via Banco Master num dia e, no outro, saía na forma de aplicações em CDBs e fundos do próprio banco liquidado.
  • O Controlador Oculto: Gestores de fundos relataram ao Senado Federal que o comprador da estatal atuaria como uma das "cabeças" ocultas do banco, utilizando as empresas privatizadas para alavancar as operações financeiras de alto risco que culminaram no colapso da instituição financeira.
  • Esvaziamento Total: Hoje, enquanto as licenças e 90% das receitas mais lucrativas foram transferidas para outros CNPJs do grupo Ligga, a estrutura original da Sercomtel amarga prédios vazios, sem clientes, sem colaboradores e sem receita própria.


Onde Estava a Fiscalização?


O silêncio do legislativo e do executivo municipal diante do esvaziamento da empresa é ensurdecedor. Cabia à Controladoria Geral do Município e aos vereadores fiscalizar o adimplemento das obrigações do edital de privatização. Ao invés disso, fecharam os olhos para os balanços que indicavam a "pedalada" financeira com o Master.

Se for provado pelas autoridades que o aporte foi apenas artificial e que a empresa foi usada no esquema, o negócio corre o risco de ser anulado na Justiça, deixando a cidade com o ônus e um esqueleto corporativo irrecuperável.

Londrina teve seu patrimônio dilapidado, mas seus representantes estavam muito ocupados legislando sobre o formato dos doces da cidade para perceber.