247 – Representantes do setor nuclear defendem que a energia produzida pelas usinas de Angra seja usada também para abastecer data centers enquadrados no Redata (Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter), segundo apuração da Agência iNFRA. O segmento espera que a fonte nuclear seja incluída entre as opções aptas a suprir os empreendimentos beneficiados pelo regime.

O presidente da Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Atividades Nucleares (Abdan), Celso Cunha, afirma que Angra 3 poderia oferecer fornecimento firme aos centros de processamento de dados. Segundo ele, seria necessária uma mudança normativa, por meio de decreto do governo federal, porque atualmente a energia das usinas de Angra é destinada ao ambiente regulado.

“Se você mudar a norma em relação a Angra 3 e colocar ela para fornecer para um data center, que é 1,6 GW (gigawatt), a usina pode ser concluída em seis anos”, disse Cunha. A construção da terceira usina nuclear de Angra está paralisada e depende de uma definição do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) sobre a continuidade do projeto.

Além da possibilidade de utilizar as usinas existentes, o ex-ministro de Minas e Energia e consultor Bento Albuquerque apontou os pequenos reatores nucleares como alternativa para uma oferta dedicada aos data centers. Segundo ele, Angra também pode atender esses empreendimentos por meio do Sistema Interligado Nacional (SIN).

Para permitir que agentes privados operem pequenos reatores, porém, seria necessário alterar o marco legal do setor, segundo Albuquerque. “Isso aí já vem sendo estudado junto à agência reguladora do setor nuclear, dentro do próprio governo e do próprio Congresso Nacional”, afirmou.

Celso Cunha apontou ainda a possibilidade de desenvolver pequenos reatores por meio de Parcerias Público-Privadas (PPPs). Nesse modelo, o agente público assumiria a operação da instalação nuclear, o que, segundo ele, dispensaria uma mudança legislativa específica para permitir a atuação privada.

“Você precisa hoje ter uma estatal envolvida, mas qualquer estatal [pode fazer]”, afirmou o presidente da Abdan. Entre as empresas que poderiam desempenhar essa função, Cunha citou a Eletronuclear, a ENBPar (Empresa Brasileira de Participações em Energia Nuclear e Binacional S.A.) e a Petrobras.

A NBEPar (Núcleo Brasil Energia Participações), holding do grupo Diamante, já desenvolve um projeto privado de microrreator com recursos próprios e da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), de acordo com Albuquerque. O empreendimento ainda não está em operação.

O ex-ministro afirmou, contudo, que ainda não há no Brasil um movimento de empresas de data centers para firmar contratos de fornecimento de energia nuclear. “Isso vai acontecer a partir do momento da regulamentação”, declarou.

Albuquerque acrescentou que o uso de energia nuclear por grandes consumidores de tecnologia já avança em outros mercados. “É uma realidade que já está acontecendo nos Estados Unidos, na Coreia do Sul, na Rússia, por exemplo, vai acontecer na Europa em breve e certamente nós vamos ter isso no Brasil”, afirmou.

Segundo Cunha, as empresas do setor nuclear já consideram a demanda futura dos data centers em seus planos. Ele afirmou ainda que o Ministério de Minas e Energia sinalizou, no Plano Nacional de Energia 2055 (PNE 2055), a entrada de novas usinas nucleares que, somadas, alcançariam 14 GW de capacidade.