247 – Integrantes do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) consideram “muito grave” o documento do governo dos Estados Unidos que critica o Brasil pelo enfrentamento às facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e ao Comando Vermelho (CV). Na área internacional, a preocupação é que a vinculação entre crime organizado e segurança nacional estadunidense possa ser utilizada por Washington para justificar medidas unilaterais.
Auxiliares de Lula avaliam que o documento “abre margem para ações militarizadas dos EUA à revelia do direito internacional”. A interpretação ganhou peso no governo diante da política adotada pela administração de Donald Trump em relação às organizações criminosas transnacionais.
O documento foi enviado pelo governo estadunidense ao Congresso na terça-feira (15). Nele, Washington critica o enfrentamento brasileiro às duas facções e cobra medidas mais duras.
Apesar das críticas dirigidas ao Brasil, o país não integra a lista de 23 nações formalmente identificadas pelos Estados Unidos como grandes produtoras ou importantes rotas de trânsito de drogas ilícitas, conforme esclareceu o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP).
Governo vê ameaça à soberania
O ponto de maior preocupação para integrantes da área internacional do governo é a associação feita pelos Estados Unidos entre organizações criminosas, narcotráfico e sua própria segurança nacional. A avaliação é de que esse enquadramento poderia ampliar o espaço político para ações unilaterais estadunidenses fora de seu território.
A posição oficial brasileira enfatiza a soberania nacional. Ao responder às críticas, o Ministério da Justiça afirmou que o país continuará atuando de maneira “soberana e coordenada” contra as organizações criminosas e defendeu a cooperação internacional como instrumento para enfrentar grupos transnacionais.
Ministério da Justiça rebate Washington
O governo Trump sustenta no documento que o Brasil não estaria adotando medidas suficientes para enfrentar PCC e CV. O Brasil não foi formalmente incluído entre os países classificados pelos Estados Unidos como grandes produtores ou importantes territórios de trânsito de drogas.
O Ministério da Justiça considera essa distinção juridicamente relevante.
“A alusão registrada no texto não corresponde à categoria jurídica de descumprimento formal prevista na legislação norte-americana que rege esse mecanismo anual. Trata-se, portanto, de manifestação circunstancial inserida na parte narrativa do documento, sem respaldo em sua parte dispositiva”, afirmou a pasta.
Em nota divulgada na quarta-feira (16), o governo brasileiro rejeitou as alegações de falhas ou omissões no combate ao crime organizado transnacional.
Segundo o Ministério da Justiça, a avaliação norte-americana desconsidera medidas implementadas pelo governo federal, entre elas a Lei Antifacção, sancionada em março de 2026. A legislação prevê punições mais severas para líderes de organizações criminosas e instrumentos destinados a atingir financeiramente as estruturas das facções.
A pasta também destacou as operações realizadas pelas forças federais e as iniciativas desenvolvidas no âmbito do Programa Brasil contra o Crime Organizado, lançado em maio. A estratégia inclui repressão financeira às facções, fortalecimento do sistema prisional, aprimoramento das investigações de homicídios e enfrentamento ao tráfico de armas.
Brasília contestou ainda a ideia de que haveria falta de colaboração com Washington. De acordo com o MJSP, Brasil e Estados Unidos já mantêm “robusta cooperação” contra o crime organizado transnacional.
O governo brasileiro lembrou também que Lula apresentou pessoalmente aos Estados Unidos, em 7 de maio, uma proposta de ações conjuntas envolvendo combate à lavagem de dinheiro, compartilhamento de inteligência e enfrentamento ao tráfico de armas.
Segundo o Ministério da Justiça, o Brasil ainda aguardava uma resposta norte-americana à proposta até a divulgação da nota.
Brasil destaca ofensiva contra crime organizado
A reação às críticas de Washington ocorre em meio a uma ofensiva das forças de segurança brasileiras contra organizações criminosas.
Na quarta-feira (16), as Forças Integradas de Combate ao Crime Organizado (Ficcos) deflagraram a Operação Força Integrada IV, que mobilizou simultaneamente 20 unidades da Federação. O balanço atualizado divulgado pelo Ministério da Justiça registra 137 prisões e 173 mandados de busca e apreensão.
A operação teve como alvos crimes como tráfico de drogas e armas, lavagem de dinheiro e atuação de organizações criminosas violentas. Somados os bloqueios financeiros e os bens apreendidos, o patrimônio alcançado chegou a aproximadamente R$ 510 milhões, segundo o MJSP.






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