247 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e seu núcleo político decidiram marcar distância do ministro Alexandre de Moraes diante da crise que atingiu o Supremo Tribunal Federal (STF) após as revelações envolvendo o magistrado e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Segundo a Folha de São Paulo, a orientação definida entre os aliados é sustentar que ninguém está acima da lei e evitar que o desgaste do episódio contamine a campanha de reeleição do petista.
Lula conversou na terça-feira (1º) com o presidente do STF, Edson Fachin, sobre a crise no Supremo. No mesmo dia, foram divulgadas mensagens que mostraram proximidade entre Moraes e Vorcaro, dono do antigo Banco Master, aumentando a pressão pública sobre a Corte.
O presidente voltou a discutir o assunto com aliados políticos na manhã desta quarta-feira (2). A linha definida pelo grupo é a de que nenhuma autoridade está acima da lei, posição que já havia sido apresentada pelo presidente do PT e coordenador da campanha de Lula, Edinho Silva.
Lula deverá comentar o episódio caso seja questionado em entrevistas, mas tende a empregar um tom mais moderado que Edinho. A avaliação entre seus aliados é de que a crise não é um assunto do governo e, por isso, não deve ser levantada espontaneamente pelo presidente.
Edinho diz que “ninguém está acima da lei”
Depois de participar da reunião com Lula, Edinho Silva divulgou um vídeo nas redes sociais no qual afirmou que “o sistema apodreceu” e defendeu mudanças no sistema político e judicial brasileiro.
“Ninguém está acima da lei, seja um cidadão comum, um governante, um parlamentar ou até um integrante do Poder Judiciário. O povo brasileiro não suporta mais para viver nesse sistema de corrupção e privilégios”, afirmou Edinho.
Sem citar Moraes nominalmente, o presidente do PT relacionou a posição à plataforma política da campanha de Lula.
“A campanha do presidente Lula defende que é urgente mudar o sistema político e judicial do Brasil, que vive uma profunda crise, que protege poderosos, perpetua privilégios e a corrupção”.
Edinho também defendeu a criação de um código de ética para o Judiciário e o Ministério Público, o fim dos supersalários e da “promiscuidade entre interesses públicos e privados”.
Gilmar Mendes também procura Lula
Além da conversa com Fachin, Lula foi procurado na terça-feira pelo ministro Gilmar Mendes, decano do Supremo. Gilmar procurou alertar o presidente sobre o que vem classificando como falta de apoio à cúpula da Polícia Federal (PF) por parte das instituições do governo.
A manifestação ocorre em meio à queda de braço entre o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e o ministro André Mendonça, do STF, em torno da condução das investigações sobre o Banco Master.
Mendonça determinou que a Polícia Federal elaborasse o relatório que expôs as trocas de mensagens entre Moraes e Vorcaro.
Lula já havia cobrado Moraes sobre caso Master
Aliados próximos a Lula recordam que o presidente já cobrou publicamente explicações de seu próprio filho, Fábio Luís, alvo de três inquéritos e de suspeitas de tráfico de influência. A avaliação é de que, seguindo esse raciocínio, seria natural adotar postura semelhante diante do caso envolvendo Moraes.
O presidente, entretanto, não pretende abordar espontaneamente o assunto. Integrantes de seu entorno avaliam que a crise não pertence à agenda do governo e, portanto, não há razão para Lula introduzi-la voluntariamente em seus pronunciamentos.
Antes das novas revelações, Lula já havia afirmado que Moraes deveria se declarar impedido de participar de votações relacionadas ao Banco Master.
Em entrevista concedida em abril, o presidente revelou o que havia dito diretamente ao ministro: “vou dizer a vocês o que eu disse para ele: ‘você construiu uma biografia histórica com o julgamento do 8 de Janeiro; não permita que esse caso do Vorcaro jogue fora sua biografia’”, disse Lula na ocasião.
Depois dessa manifestação, Lula e Moraes atravessaram um período de afastamento, mas voltaram a se aproximar nos meses seguintes.
Revelações aumentam pressão sobre Moraes
A crise ganhou força após a revelação, na terça-feira, de que Vorcaro perguntou a Moraes se deveria fugir do Brasil dois dias antes de ser preso, quando estava prestes a viajar para o exterior. Também veio a público que o ministro editou um contrato de R$ 131 milhões entre o Banco Master e o escritório de advocacia de sua mulher, Viviane Barci de Moraes.
As revelações deram novo impulso à ofensiva do grupo político do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho de Jair Bolsonaro (PL), candidato à Presidência e principal adversário de Lula na eleição.
Os bolsonaristas intensificaram a pressão pelo impeachment de Moraes, medida defendida pelo grupo há anos. O ministro foi o principal responsável pelo processo que culminou na prisão de Jair Bolsonaro.
Desgaste do STF entra no cálculo eleitoral
Desde o fim do ano passado, aliados de Lula avaliam que o desgaste do Supremo provocado pelo escândalo envolvendo o Banco Master pode interferir na popularidade do presidente.
O STF representou um importante ponto de apoio institucional para Lula durante seu atual governo, situação que aproximou a imagem do petista da de integrantes da Corte. Moraes esteve entre os ministros mais próximos do presidente.
No início de agosto, por exemplo, a casa do magistrado serviu de cenário para uma articulação política importante: foi no local que Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), retomaram o contato depois de meses de afastamento.
A estratégia de Lula diante da crise também é definida em um momento de disputa eleitoral apertada. Pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira aponta o presidente com 42% das intenções de voto em um eventual segundo turno contra Flávio Bolsonaro, que registra 41%. Como a margem de erro é de dois pontos percentuais, o cenário representa empate técnico.






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