Lech Wałęsa, um dos mais renomados líderes sindicais do século XX, comemora 83 anos nesta terça-feira. Eletricista dos estaleiros de Gdansk, fundador do Solidariedade, Nobel da Paz e primeiro presidente da Polônia pós-comunismo, sua trajetória política esteve por décadas no radar de Luiz Inácio Lula da Silva. Para Lula, Wałęsa representou simultaneamente um modelo a ser seguido e um risco a ser evitado.
Ambos os líderes emergiram do ambiente industrial e do sindicalismo para alcançar a presidência de seus respectivos países. Wałęsa assumiu a presidência da Polônia em 1990, enquanto Lula chegou ao Palácio do Planalto doze anos depois, em 2002. Foi o período pós-ascensão de Wałęsa ao poder que impactou profundamente Lula. O líder do Solidariedade governou a Polônia de 1990 a 1995, em um período de difícil transição econômica do socialismo para o capitalismo. Ao tentar a reeleição em 1995, foi derrotado e, em 2000, sua tentativa de retorno à presidência resultou em uma votação inexpressiva.
O peso do fracasso e a responsabilidade de governar
Lula mencionou essa trajetória em diversas ocasiões para ilustrar o peso de sua própria chegada à presidência em 2003. Em entrevista oficial concedida em 2009, o então presidente afirmou que se via como um líder que não tinha permissão para errar. “Eu era o único candidato no Brasil que não podia falhar. Eu não podia me dar ao luxo de cometer erros. Não podia fazer o que [Lech] Walesa fez na Polônia, ou nunca mais um trabalhador poderia ser eleito presidente novamente”, declarou Lula. Essa preocupação foi recorrente em seus discursos durante o segundo mandato.
Em 2010, Lula reiterou: “Eu trabalhava muito com a ideia do fracasso do Walesa, na Polônia”. Ele explicou que via na experiência de Wałęsa algo que transcenderia o destino individual de um governante. Para Lula, um eventual insucesso de sua administração não seria atribuído apenas a ele ou ao PT, mas poderia ser usado como argumento de que trabalhadores e pessoas de origem popular não teriam competência para governar. “Eles iriam dizer: ‘Não sabe governar. Peão de fábrica não sabe governar’”, recordou o presidente.
A comparação com Wałęsa acompanhou Lula por muitos anos. Em 2019, durante entrevista à Folha de S.Paulo enquanto estava detido em Curitiba, ele retornou ao tema: “Eu tinha muito medo do [Lech] Walesa na Polônia. Olhava para o fracasso do Walesa […] e falava: ‘Deus me livre, não quero ser isso’.”
Trajetórias paralelas e distintas
As semelhanças biográficas entre os dois eram notáveis. Wałęsa nasceu em 29 de setembro de 1943 em uma família humilde na Polônia, trabalhando como eletricista e se tornando figura central na resistência sindical ao regime comunista. Lula, nascido dois anos depois, em 1945, também em uma família pobre, migrou do Nordeste para São Paulo, onde se tornou metalúrgico e liderou as grandes greves do ABC paulista no final da década de 1970. Ambos foram detidos por sua militância política e sindical, e se transformaram em símbolos internacionais do movimento trabalhista, alcançando a presidência de seus países.
No entanto, existiam diferenças políticas substanciais. Wałęsa construiu sua trajetória em oposição ao comunismo polonês, com forte apoio da Igreja Católica. Lula emergiu do novo sindicalismo brasileiro durante a ditadura militar e foi cofundador do Partido dos Trabalhadores. Os dois, inclusive, se encontraram no Vaticano no início dos anos 1980, quando ainda atuavam como líderes sindicais.
Décadas mais tarde, em 29 de setembro de 2011, já fora da presidência e com alta popularidade, Lula recebeu o Prêmio Lech Wałęsa em Gdansk. Em seu discurso, Lula expressou respeito pelo polonês e destacou as origens comuns. “Nossas biografias têm vários pontos em comum. Nascemos ambos de famílias pobres, em regiões distantes da sede do poder. Não concluímos todos os níveis da escola formal, e começamos a trabalhar cedo”, afirmou o ex-presidente.
Lula também relembrou que Wałęsa atuou como eletricista em Gdansk, enquanto ele próprio se tornou metalúrgico em São Bernardo do Campo. Essa ocasião simbolizou a convergência de duas trajetórias que, embora tivessem começado em contextos semelhantes, seguiram caminhos políticos distintos. Wałęsa foi peça fundamental na queda do regime comunista polonês, recebeu o Nobel da Paz em 1983, mas sua passagem pelo governo foi marcada por divisões políticas e derrota eleitoral. Para Lula, essa experiência se tornou um lembrete constante de sua própria responsabilidade histórica, com a convicção de que seu desempenho no poder serviria como um julgamento sobre a capacidade de outros trabalhadores ocuparem a presidência. Por isso, Lula repetia frequentemente durante seus primeiros governos a ideia de que não poderia ter um desfecho semelhante ao de Wałęsa. Mais de duas décadas após sua primeira posse, essa referência ilumina uma preocupação que acompanhou Lula desde o início: provar que um operário não apenas pode ser eleito presidente, mas também governar com sucesso e manter o apoio popular.






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