A prática do chamado 'voto útil' nas eleições é um tema de debate, especialmente quando se trata de candidaturas ao Senado. O argumento central é que, embora a escolha individual do voto seja legítima, a forma como o voto útil é promovido pode desconsiderar aspectos importantes e gerar um tipo de 'tutela' sobre o eleitor, limitando sua autonomia.
Críticos da estratégia apontam que a linguagem empregada na defesa do voto útil muitas vezes carrega julgamentos sobre candidatas, como se observa com Benedita da Silva (PT) e Mônica Benício (PSOL). Gênero, raça e orientação sexual são marcadores sociais que, mesmo por indivíduos progressistas, podem ser inadvertidamente silenciados ou postergados em nome de uma suposta utilidade, o que é visto como uma forma velada de destituição de identidades. O machismo internalizado pode se manifestar na forma como a consciência é organizada e no que é subentendido, transformando pressupostos em verdades que não necessitam de explicação.
Voto útil: para quem e por quê?
A questão principal levantada é: voto útil para quê e para quem? A utilidade, por sua natureza, envelhece rapidamente. O que parece útil antes do voto pode se tornar inútil logo após a urna, sem beneficiar as realidades concretas dos eleitores. Segundo a análise, a lógica do voto útil beneficia principalmente o candidato agraciado e uma racionalidade conservadora, que, ao invés de buscar o engajamento político do eleitor, apenas visa obter seu voto.
Essa lógica se alimenta da construção de ameaças e da produção de um pânico moral, buscando um resultado específico. Ao realizar um voto útil com base em pesquisas eleitorais, o eleitor pode contribuir para a desidratação de seu próprio candidato, e a pesquisa, por sua vez, reforça o efeito da propaganda do voto útil. As regras eleitorais não ditam um voto útil; essa é uma interpretação enviesada da matemática eleitoral, que desconsidera as escolhas individuais e diversas visões de mundo.
Implicações e desdobramentos da estratégia
O beneficiário do voto útil não se compromete necessariamente a formar coalizões que contemplem as pautas dos eleitores, nem a incorporar essas demandas em sua agenda de governo. O voto do eleitor se transforma em capital político para sustentar o projeto político que o inventou. A expressão 'voto útil' carrega consigo uma ilusão de factualidade, impondo um indivíduo genérico e universal, sem cor, gênero, orientação sexual, classe ou origem social. Esse eleitor universal, imaginado pelos 'profetas do voto', pensa com os mesmos critérios de quem anuncia o futuro eleitoral e tenta prescrever qual voto é útil.
Essa transição da predição para a prescrição, motivada pelo medo, é onde se instala a 'tutela' do eleitor. Esse 'pastiche estatístico', que não existe na realidade, ganha força pelo uso do medo legítimo. É a mesma engrenagem vista em certas máquinas eleitorais, inclusive com o apoio de setores religiosos, que promovem discursos de terror. Diante desse medo agravado por campanhas publicitárias, espera-se que o eleitor abandone suas preferências individuais em favor de uma contabilidade que beneficie um projeto de poder, muitas vezes expresso em propagandas intimidatórias. A 'tática mística do menos pior' ou do 'menor risco' impõe uma tutela ao eleitor por aqueles que se consideram mais 'conscientes' ou 'iluminados', uma 'tutela' que é comparada a um 'pastoreio de gado'.






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