A eleição do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para a Presidência da República poderia impactar significativamente a política externa brasileira, levando o país a se desvincular do BRICS. Esta é a avaliação do professor de ciência política Fabiano Mielniczuk, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e membro do Clube de Valdai, conforme entrevista concedida à Sputnik Brasil durante a 23ª Reunião Anual do Clube Valdai de Discussões Internacionais, que ocorreu perto de Moscou entre os dias 28 de novembro e 1º de dezembro.

Debates sobre política internacional e tecnologia

O evento, que reuniu cerca de 120 participantes de 40 nações, focou nos desafios da previsibilidade da política internacional frente à crise das instituições intergovernamentais. Na abertura, Mielniczuk discutiu o impacto da inteligência artificial na política global, argumentando que o Estado liberal ocidental usa a tecnologia e o apoio de grandes corporações para expandir sua influência e impor uma moralidade específica. Ele comparou a formulação de ideias por líderes ocidentais às “alucinações da inteligência artificial”, que podem ser logicamente coerentes, mas sem fundamento na realidade.

O professor também comentou o relatório “Sem pânico: o Estado e responsabilidade pelo futuro”, do Clube Valdai. O documento aponta o caos como característica da política internacional atual e destaca o Estado como protetor em meio às incertezas. Mielniczuk defendeu a necessidade de estabelecer limites para o uso da tecnologia, ressaltando que, apesar das possibilidades ilimitadas, ela também apresenta riscos infinitos. Ele enfatizou o ressurgimento do protagonismo do Estado em questões éticas e morais, considerando-o essencial para a proteção dos cidadãos contra os perigos tecnológicos.

O futuro do BRICS e cenários para o Brasil

O futuro do BRICS foi outro tópico abordado. Gustavo de Carvalho, chefe do programa em diplomacia e governança africana no Instituto Sul-Africano de Assuntos Internacionais, explicou que o movimento do grupo não se limita à desdolarização, mas busca a diversificação de mecanismos financeiros, enxergando o dólar como uma ferramenta política potencialmente arriscada. Mielniczuk descreveu o BRICS como uma plataforma de coordenação para países em desenvolvimento e do Sul Global, que facilita a interlocução entre seus membros, mesmo diante de divergências, sem a necessidade de mediação de potências do Norte Global, como Estados Unidos ou Europa.

Ao analisar a eleição brasileira, Mielniczuk apresentou dois cenários. Caso Luiz Inácio Lula da Silva seja reeleito, a política externa brasileira tenderia a uma maior aproximação com o BRICS, Rússia e China. O professor sugeriu que Lula adotaria uma postura mais assertiva para contrabalançar o poder americano no continente. Por outro lado, um eventual governo de Flávio Bolsonaro levaria a uma maior aproximação com os Estados Unidos, com o Brasil possivelmente ingressando no “Escudo para as Américas” e reforçando sua candidatura para a OCDE. Neste cenário, haveria entraves na cooperação com Rússia e China, e o Brasil poderia, inclusive, sair do BRICS.