A recente decisão da União Europeia de suspender a importação de carne bovina brasileira, válida desde 3 de setembro, não deverá provocar uma queda considerável nos preços para os consumidores brasileiros. Essa é a avaliação de Fernando Enrique Iglesias, analista da Safras & Mercado, que aponta a limitada representatividade do bloco europeu nas exportações do setor como um dos fatores para essa projeção.

Iglesias ressalta que é “pouquíssimo provável” que haja um barateamento. A medida europeia, que também afeta frango, carne suína, mel, pescados e ovos, foi motivada pela exclusão do Brasil da lista de fornecedores aptos a cumprir as regras do bloco sobre o uso de antimicrobianos na pecuária. A União Europeia proíbe o uso dessas substâncias para estimular o crescimento dos animais e veta determinados antimicrobianos reservados ao tratamento humano.

Exportações para a China e oferta interna

A participação da União Europeia nas exportações brasileiras de carne bovina é relativamente pequena. Dados do Ministério da Agricultura de 2025 indicam que o bloco representou apenas 3,7% do volume total exportado e 5,8% da receita. Mesmo para cortes específicos como filé mignon, contrafilé e alcatra, tradicionalmente enviados à Europa, não se prevê uma redução relevante nos preços internos.

A expectativa de um aumento nas exportações para a China, principal destino da carne bovina brasileira, surge como um fator crucial que pode, inclusive, pressionar os preços para cima no mercado interno. Após uma desaceleração nos embarques entre julho e setembro, frigoríficos devem intensificar o envio de carne para o mercado chinês a partir de outubro. A China estabeleceu uma cota anual de 1,1 milhão de toneladas com tarifa de 12%, aplicando uma taxa adicional de 55% para volumes excedentes. A necessidade de aproveitar a cota de 2027 e o tempo de transporte marítimo impulsionarão as exportações nos últimos meses de 2026, resultando em menor oferta para o consumidor brasileiro.

Disponibilidade de bois e outros produtos

Outro ponto que contribui para a manutenção dos preços é o ciclo pecuário brasileiro. O país enfrenta uma fase de menor disponibilidade de bovinos para abate, o que naturalmente reduz a oferta de matéria-prima para a indústria. A combinação de menos animais e o aumento esperado das exportações limita a possibilidade de o embargo europeu gerar um excedente significativo no mercado doméstico.

O embargo da União Europeia não se restringe à carne bovina, abrangendo também frango, carne suína, mel, pescados e ovos. A decisão não se baseou em problemas diretos nos produtos, mas na avaliação de que o sistema brasileiro de controle de antimicrobianos necessita de mais garantias. Embora o governo brasileiro esteja em negociação e o bloco tenha iniciado auditorias, a reduzida participação da União Europeia nas exportações brasileiras de produtos de origem animal, somada à demanda chinesa e à menor oferta interna, reforça a perspectiva de que o veto não resultará em carne mais barata para o consumidor no Brasil.