247 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta segunda-feira (21) que o Uruguai autorizou o Brasil a utilizar parte do excedente de sua cota de exportação de carne bovina para a China, medida que pode ampliar a margem para os embarques brasileiros ao principal destino do produto no exterior.

A informação foi divulgada inicialmente pelo Metrópoles e confirmada pelo próprio presidente após uma reunião bilateral com o presidente uruguaio, Yamandú Orsi, em Nova York, onde os dois participam da semana de Alto Nível da Assembleia Geral das Nações Unidas.

“Agradeci a autorização concedida ao Brasil para uso do excedente da cota uruguaia de exportação de carne bovina para a China”, afirmou Lula, em publicação nas redes sociais após o encontro.

A negociação ocorre em um momento de atenção para o setor exportador brasileiro. A China estabeleceu para 2026 uma cota de 1,106 milhão de toneladas de carne bovina do Brasil sujeita à tarifa de importação de 12%. Acima desse volume, a regra chinesa prevê a aplicação de uma tarifa adicional de 55%.

Brasil se aproxima do limite

Dados do Ministério do Comércio da China citados pelo Metrópoles indicaram que, até agosto, 995,4 mil toneladas de carne bovina brasileira in natura já haviam ingressado no mercado chinês, volume superior a 90% do limite anual reservado ao país.

A proximidade do teto levou empresas do setor a reduzir o ritmo dos embarques diante do risco de que cargas acima da cota passassem a enfrentar a sobretaxa. Em julho, o Ministério da Agricultura já havia esclarecido que a tarifa de 55% não era uma taxação específica contra o Brasil, mas parte de uma salvaguarda aplicada pela China às importações que ultrapassassem os limites definidos para cada fornecedor.

Segundo o governo brasileiro, a cota de 1,106 milhão de toneladas concedida ao Brasil é a maior entre os países abrangidos pelo mecanismo chinês.

A transferência de parte do excedente uruguaio, portanto, pode aliviar a restrição enfrentada pelos exportadores brasileiros e preservar uma parcela maior dos embarques sob condições tarifárias menos onerosas.

Salvaguarda chinesa afeta ritmo dos embarques

A salvaguarda foi adotada pelo governo chinês para limitar o crescimento das importações e proteger produtores locais. Pela regra vigente, a carne brasileira permanece sujeita à tarifa de 12% enquanto os embarques estiverem dentro da cota definida.

Quando o limite é ultrapassado, a parcela excedente passa a enfrentar a tarifa adicional prevista pelo mecanismo. O impacto potencial já havia levado frigoríficos e entidades do setor a acompanhar de perto o consumo da cota ao longo de 2026.

Em julho, os embarques brasileiros de carne bovina à China recuaram para 85,7 mil toneladas, queda de 47% em relação às 161,8 mil toneladas registradas em junho, segundo dados compilados pelo Metrópoles. A receita caiu de US$ 1,08 bilhão para US$ 537,8 milhões no período.

Há ainda uma diferença relevante entre o ritmo registrado pelas autoridades chinesas e o acompanhado pelos frigoríficos brasileiros. Pequim contabiliza as cargas no momento em que elas são desembaraçadas e entram efetivamente no país, enquanto o setor brasileiro também considera mercadorias que já foram embarcadas e permanecem em trânsito.

Como a viagem até a China pode levar semanas, o volume comercialmente comprometido pode ficar mais próximo do teto do que os dados de entrada em território chinês indicam.

China segue como mercado central

A negociação anunciada por Lula acontece paralelamente a outras tratativas entre os dois países no setor de carnes. Autoridades sanitárias chinesas iniciaram neste mês uma missão de inspeção em frigoríficos brasileiros para avaliar unidades que buscam habilitação para exportar e estabelecimentos com autorizações temporariamente suspensas.

A agenda reforça a importância do mercado chinês para a pecuária brasileira e ocorre enquanto governo e setor produtivo discutem formas de administrar os limites impostos pela salvaguarda.

Para 2027, a China já definiu uma cota de 1,128 milhão de toneladas para a carne bovina brasileira, ligeiramente superior ao volume de 2026. Entidades do setor, no entanto, alertam que o limite poderá ser novamente consumido rapidamente se os embarques se concentrarem nos primeiros meses do ano.