247 – Com menos de 24 horas de existência, o Parceiros pelo Multilateralismo, iniciativa formada inicialmente por Brasil, Canadá e Quênia, começou a despertar o interesse de outros governos. Índia e Austrália fizeram sondagens sobre uma possível adesão ao grupo, lançado às vésperas da Assembleia Geral das Nações Unidas para fortalecer a cooperação internacional e a defesa das instituições multilaterais.

Segundo a coluna da jornalista Janaína Figueiredo, no UOL, fontes oficiais confirmaram que as consultas começaram pouco depois da apresentação da iniciativa, feita por meio de um manifesto. A articulação ocorre em um momento de tensão entre o governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e organismos multilaterais, entre eles a própria ONU.

Embora a iniciativa não mencione nominalmente Trump, a iniciativa é vista omo uma resposta à política do governo estadunidense em relação ao multilateralismo. O grupo defende o fortalecimento das regras internacionais e das instituições criadas para administrar disputas e promover a cooperação entre os países.

Índia e Austrália fazem sondagens

A eventual incorporação da Índia é considerada especialmente relevante pela dimensão econômica e diplomática do país. Além de integrar o BRICS ao lado do Brasil, Nova Délhi tem participação crescente nos debates sobre reforma da governança internacional e representação das economias emergentes.

A Austrália também realizou consultas sobre a iniciativa, de acordo com a reportagem. A entrada dos dois países ampliaria a abrangência geográfica do Parceiros pelo Multilateralismo e reforçaria a intenção de reunir governos vinculados a diferentes espaços diplomáticos.

A expectativa dos articuladores é justamente atrair novos integrantes, sobretudo grandes países emergentes. O grupo permanece aberto à adesão de governos comprometidos com os princípios fundamentais das Nações Unidas.

Canadá aproxima o G7 da articulação

Um dos aspectos relevantes da nova iniciativa é a presença do Canadá. O país integra o G7, grupo que reúne algumas das principais economias desenvolvidas e do qual também fazem parte os Estados Unidos.

O Quênia, por outro lado, acrescenta à articulação uma importante representação africana e do Sul Global. O Brasil reforça esse componente ao mesmo tempo que estabelece uma ponte com o BRICS.

Segundo a apuração de Janaína Figueiredo, a origem da proposta remonta à cúpula do G7 realizada na França, em junho. Em um encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o presidente do Conselho Europeu, António Costa, apresentou a ideia. Canadá e Quênia posteriormente se incorporaram à articulação.

O acordo foi concluído no fim de semana, em uma corrida diplomática para que o anúncio pudesse ocorrer antes da chegada dos chefes de Estado e de governo a Nova York para a Assembleia Geral da ONU.

Grupo coloca guerras e gastos militares na agenda

A nova frente diplomática também procura responder à multiplicação dos conflitos armados e ao crescimento das despesas militares em todo o mundo.

De acordo com os dados citados no documento de lançamento, existem pelo menos 65 conflitos armados entre Estados em 35 países, o maior número registrado desde 1946. Os gastos militares globais, por sua vez, atingiram o recorde de US$ 2,9 trilhões.

O diagnóstico é de que a deterioração da segurança internacional exige maior coordenação entre os governos, e não o enfraquecimento das instituições multilaterais.

A premissa defendida pelos integrantes é que desafios que ultrapassam as fronteiras nacionais não podem ser enfrentados de maneira isolada. Entre os exemplos estão as mudanças climáticas, a rápida expansão da inteligência artificial e as guerras comerciais.

Iniciativa defende princípios da ONU

Os países interessados em integrar a articulação deverão compartilhar princípios considerados fundamentais pelos fundadores, como respeito à integridade territorial, defesa dos direitos humanos e solução pacífica das controvérsias internacionais.

A proposta também busca reafirmar a importância do direito internacional e de organizações multilaterais, especialmente a ONU, diante das crescentes disputas entre as grandes potências.

A articulação apresenta pontos de convergência com posições defendidas pelo Brics, mas possui uma composição distinta. A presença canadense permite estabelecer uma ligação direta com o G7, enquanto Brasil e Quênia reforçam a participação do Sul Global.

Nova frente ganha peso às vésperas da Assembleia Geral

O momento escolhido para o lançamento amplia a dimensão política da iniciativa. Chefes de Estado e de governo estão reunidos em Nova York para a Assembleia Geral das Nações Unidas, principal encontro anual da organização.

Para o Brasil, a articulação está alinhada à defesa histórica do multilateralismo pela diplomacia brasileira e à atuação de Lula em favor de maior participação dos países emergentes nos organismos internacionais.

A possível expansão do grupo para países como Índia e Austrália será um dos primeiros indicadores de sua capacidade de transformar uma articulação recém-criada em uma plataforma diplomática mais ampla.

Caso as consultas resultem em adesões, o Parceiros pelo Multilateralismo poderá reunir países vinculados ao G7, ao Brics e ao Sul Global em torno de uma agenda comum de fortalecimento da ONU, do direito internacional e dos mecanismos de solução pacífica de conflitos.