Desde 1500, as elites do país expressaram cordialmente o seu ódio contra os mais pobres, os menos brancos e todos aqueles que, de alguma forma, não as refletem no espelho. Porém, no meio do caminho pavimentado para que seus herdeiros fossem eternamente privilegiados pela estrutura desigual de sociedade criada por elas, havia uma pedra. Um obstáculo sindicalista oriundo das camadas mais pobres da população brasileira. Justamente da classe social estabelecida para servir e agradecer pela oportunidade de fazer, com o seu árduo e mal remunerado trabalho, esta elite ficar cada vez mais rica. Essa pedra se chamava Lula. E ela continua no sapato dessa elite, porque se tornou um símbolo de resistência contra ela.
Voltemos ao Nordeste dos anos 1970 e 1980. Lá, encontramos a fome, a seca, a morte e a incerteza da sobrevivência por parte daqueles que ainda resistiam. Entre 1979 e 1984, a região foi vítima de uma estiagem que gerou uma crise famélica sem precedentes no sertão do país. Sem água, o pasto secava, o gado morria e os pequenos agricultores não tinham de onde tirar o sustento. A mortalidade infantil era extrema. Não apenas no Nordeste, mas também em todo o país. Dados da década de 1970 registravam o número assustador de 120 óbitos para cada mil crianças que nasciam vivas. Uma em cada oito crianças não ultrapassava o primeiro ano de vida. Não havia programas de transferência de renda, políticas de combate à fome ou projetos sociais voltados para a assistência aos mais vulneráveis. O desespero levou a população nordestina a promover saques em mercados, feiras livres e redes de abastecimento alimentício para ter o mínimo para sobreviver.
Diversas eram as causas dessas mortes de crianças e dos altos índices de pobreza que afetavam o país. Falta de saneamento básico, baixa cobertura vacinal e, sobretudo, a insegurança alimentar. A fome era endêmica. Mas a estrutura política e social permanecia intocável, privilegiando os herdeiros das capitanias. Famílias muito conhecidas hoje no meio político já davam as cartas no Nordeste. E nunca se preocuparam em mudar aquela situação. Porque tudo fazia parte do projeto de sociedade elaborado meticulosamente para matar os mais pobres de fome, de raiva e de sede. Tudo em forma de gestos naturais, como escreveu Caetano Veloso em “Podres Poderes”. E não dava para cantar afinado com eles. Muito menos silenciar em respeito a um transe social que só provocava êxtase nos mais favorecidos. Seria indecente. E Lula não foi, não é e nunca será. É daí que surge o ódio à sua figura política, à luta dos trabalhadores através do partido que ele ajudou a criar e a tudo o que ele representa de ruim para uma elite escravocrata, rancorosa e violadora dos direitos fundamentais de todo cidadão.
Desde que Lula assumiu a presidência, em 2002, o Brasil passou por diversas transformações sociais e econômicas. O Nordeste e os mais pobres, que antes eram vistos como “problemas” para os governos anteriores, passaram a ser a solução para a reconstrução do país. Incluir o pobre no orçamento da União retirou o Brasil do mapa da fome e fomentou políticas de inclusão social e educacional. Promoveu a criação de moradias populares através do Minha Casa, Minha Vida, acabou com a insegurança alimentar por meio do Bolsa Família, melhorou o acesso à saúde por meio de mais investimentos no SUS e aumentou o poder de compra do cidadão comum. Obviamente, em função dos expressivos números negativos herdados de gestões passadas, Lula e, posteriormente, a presidenta Dilma não acabaram com a pobreza no país. Ela ainda persiste. Em menor número, mas ainda é grande. Graças a uma pedra que a elite colocou no meio do caminho do avanço social da população mais pobre: a Lava Jato.
Interromper os governos do PT sob a égide do combate à corrupção foi a missão recebida por Sérgio Moro e companhia jurídica limitada. Foram sete anos de ações ilegais, prisões sem provas, abusos de autoridade, lawfare e sabotagem política contra o país. Dilma Rousseff foi impichada, mas Lula era o alvo. Criminalizar aquele que ousou desafiar a estrutura montada para que os mais ricos mantivessem os mais pobres sob opressão infinita era uma questão de honra movida por ódio. E a jornalista Vera Magalhães, a mesma que hoje tenta passar a imagem da nova namoradinha do Brasil no jornalismo, estava entre aqueles que abraçaram esta causa com unhas, dentes e muito ódio. Ódio porque tinha pobre e preto nas universidades criadas exclusivamente para brancos e ricos. Ódio por dividir o mesmo assento no avião com pessoas que deveriam estar viajando de ônibus. Ódio porque tinha pobre se formando, conseguindo um emprego melhor e deixando o subemprego que a elite burguesa reservou para ele como destino.
Não adianta Vera Magalhães fazer um mea-culpa sob a forma de análise política, chamando a atenção para o ódio de classe contra Lula, a esquerda e o PT, quando ela colaborou com o surgimento do bolsonarismo que ela agora critica. Sim. Existe um ódio de classe contra Lula. Sempre existiu. E Vera, quando apoiou a Lava Jato e seus desmandos jurídicos, também alimentou esse ódio. Reconhecer o crescimento econômico e a redução da desigualdade no país durante os governos do PT é reconhecer o óbvio. De fato, a maioria que votou em Bolsonaro e votará no seu filho mais corrupto nas próximas eleições não o faz por convicção política nem por querer um país melhor. Até porque o país ficou melhor com Lula na presidência. O faz por ódio ao que Lula representa. Não por acaso, a maior parte do eleitorado bolsonarista é branca e de classe média alta.
O bolsonarismo avoca para si a condição de falar pelo verdadeiro povo brasileiro no combate à corrupção. É a reprodução do discurso lavajatista e hipócrita que politizou o Judiciário nacional. É a resposta da elite burguesa que apostou numa família de milicianos, rachadores, trapaceiros e mamadores do dinheiro público como a sua tábua de salvação contra a inclusão social que Lula promoveu no país. O caráter bolsonarista é o mesmo da elite burguesa brasileira. É o mesmo da Lava Jato. É o mesmo daqueles que querem o seu país de volta. Um país onde a fome matava crianças recém-nascidas e onde a seca castigava o povo do Nordeste. Um país onde os preconceitos eram naturalizados e suas vítimas não tinham o direito de se defender. Um país perfeito que foi “destruído” por um pobre operário nordestino e “analfabeto”, que “roubou” o que era da elite para tentar fazer justiça social. Esse “ladrão” destruiu o país que queríamos deixar para os nossos netos. Que ódio!
O mais grave de tudo isso é que o poder social, econômico e político das elites brasileiras, que permite que elas moldem e manipulem subjetividades, é capaz de fazer com que até mesmo os mais pobres e os menos favorecidos absorvam esse ódio de classe. É daí que surge o pobre aporofóbico, o preto racista, o favelado elitista, o gay homofóbico, a mulher machista, o cristão diabólico. A ausência de consciência de classe também é um projeto. Vejo com tristeza pessoas que foram beneficiadas com as políticas implementadas pelos governos Lula e Dilma se aliando a um projeto de poder que gostaria que elas tivessem permanecido onde estavam. No mapa da fome, da seca, da falta de dignidade e da inexistência. Na mira da morte. É puro ódio.






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