As relações internacionais resvalam rapidamente para o descontrole. Não se trata mais de crises regionais contidas por canais diplomáticos, mas de uma sobreposição de teatros em que a linguagem jurídica da segurança autoriza o uso da força sem declaração formal de guerra.

O epicentro da crise está no Golfo Pérsico. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou em sua rede Truth Social que “Toda uma civilização morrerá esta noite, para nunca mais voltar. Eu não quero que isso aconteça, mas provavelmente vai acontecer”, fixando um ultimato para que Teerã aceite reabrir integralmente o Estreito de Ormuz. O ultimato deixou de ser apenas retórico. Trump ordenou à Marinha americana afundar todos os navios que estejam minando o Estreito. A ordem já foi executada em parte com o afundamento de um petroleiro iraniano carregando na Ilha de Kharg, terminal de onde saem 90% das exportações de petróleo do Irã, além de ataques a bunkers, estação de radar e depósitos de munição. Israel, em coordenação, bombardeou pontes e ferrovias usadas pela Guarda Revolucionária. A China, que compra a quase totalidade do petróleo iraniano a preço de desconto para suas refinarias independentes, prometeu forte reação. Pequim e Moscou criticaram a ação americana como ato de guerra unilateral, enquanto aliados europeus pedem contenção. Mesmo com cerca de 300 navios retidos, embarcações com identificação de proprietário chinês continuam forçando a passagem, pois Ormuz é a artéria energética chinesa. Pela primeira vez, Washington não ataca apenas com sanções financeiras, mas destrói fisicamente a cadeia que alimenta a China.

A guerra da Ucrânia, por sua vez, se generalizou após uma onda massiva de drones contra Moscou, com relatos russos falando em até mil vetores em 24 horas, número ainda não verificado de forma independente, mas indicativo da mudança de escala. Na Europa, a percepção já é de pré-guerra, com a manchete continental de que a Europa se prepara para a guerra. O primeiro-ministro polonês Donald Tusk afirmou no Parlamento que, de acordo com avaliações de inteligência, o plano russo também inclui ataques híbridos usando drones e mísseis contra países que apoiam a Ucrânia, incluindo a Polônia. Os fatos confirmam a escalada com a Polônia confirmando 19 drones russos cruzando seu território, quatro abatidos com ajuda da OTAN, um drone com dispositivo explosivo abatido sobre a Lituânia por caças italianos e um míssil de cruzeiro violando o espaço aéreo polonês. Moscou declarou que todas as linhas vermelhas foram rompidas, com advertências diretas contra Polônia e Lituânia, ameaça contra a Alemanha com suspensão das relações consulares, e declaração do vice-presidente do Conselho de Segurança, Dmitry Medvedev, de que é iminente um ataque aos postos da OTAN na Lituânia, enquanto uma unidade de mísseis estratégicos permanece em prontidão de combate na Belarus desde o fim de 2025.

No extremo norte, a Dinamarca, depois de considerar as propostas de Trump absurdas e afirmar repetidamente que a Groenlândia não estava à venda, acaba de assinar um acordo secreto com os Estados Unidos entregando bases e territórios. O acordo foi anunciado por Trump como um acerto que dá aos EUA o controle permanente sobre a segurança da Groenlândia, com a declaração de que os EUA iniciarão imediatamente o processo de desenvolvimento de uma grande presença militar na parte apropriada da Groenlândia. Trump vinha insistindo que a ilha é crucial para sua segurança e para seu plano de construir um escudo chamado Domo de Ouro. O grande projeto de Trump de um Domo de Ouro para a proteção do país, centralizado em bases assimétricas no Alasca e na Groenlândia, avança. O acordo prevê acesso permanente, direito de base e de sobrevoo, poder unilateral americano para construir novas instalações e veto a bases e investimentos sensíveis de adversários. Tropas e engenheiros americanos já estão desembarcando na imensa ilha ártica, a partir da base existente de Pituffik, para ampliar a presença militar.

O terceiro teatro é hemisférico e tem o Brasil como foco. A Agência Brasileira de Inteligência, a ABIN, e somente a ABIN, não o Itamaraty, elaborou relatório reservado com nível de criticidade, apontando risco de influência ou interferência dos Estados Unidos nas eleições de outubro. O documento, encaminhado ao Planalto, ao TSE e ao Ministério da Justiça no fim de agosto, contextualiza que a reafirmação da hegemonia dos EUA na América Latina é prioridade do segundo governo Trump, com objetivo de afastar rivais como a China de ativos estratégicos. A base jurídica para pressão foi criada quando o secretário de Estado Marco Rubio designou o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho como Terroristas Globais Especialmente Designados e também como Organizações Terroristas Estrangeiras, classificação em vigor desde junho. O Departamento de Estado mantém as duas facções na lista de Organizações Terroristas Estrangeiras. A Casa Branca acusou formalmente que o Brasil falhou em confrontar o PCC e o Comando Vermelho, que teriam transformado o país em hub global de cocaína, afirmando que enquanto muitos governos do Hemisfério Ocidental estão tomando medidas corajosas para reduzir o fluxo de drogas e erradicar cartéis, o governo do Brasil tem falhado em enfrentar as designadas organizações terroristas estrangeiras. O translado de drones e mísseis do Comando Africano para o Comando Sul dos EUA, já detectado, com reforço de parcerias com Colômbia e Paraguai, configura demonstração de força claramente voltada contra o Brasil, já que todos os demais países sul-americanos prometeram colaboração total aos EUA na nova doutrina antidrogas e antiterror e só o Brasil resiste à classificação de suas facções como terroristas. É nesse contexto que se inserem as manifestações russa e chinesa de apoio à plena soberania brasileira. Quatro doutrinas que permitem o uso da força sem guerra declarada estão assim ativas simultaneamente: a liberdade de navegação em Ormuz, a defesa avançada contra ameaças híbridas na OTAN, a doutrina de organização terrorista estrangeira nas Américas e a doutrina do Domo de Ouro no Alasca e Groenlândia. O controle de escalada que sustentou a ordem internacional desde 1945 sofreu um lapso momentâneo da razão.