Lula saiu do embate do primeiro turno com até cinco pontos de vantagem em relação a Bolsonaro em 2022, segundo as primeiras pesquisas logo depois da primeira votação. A distância foi sendo consumida, e a maioria dos levantamentos previu um dia antes da eleição que Lula venceria com algo ao redor de um ou dois pontos de diferença.

O Datafolha ficou entre os que mais se distanciaram do resultado final de 30 de outubro. Previu que Lula venceria por 52% a 48%, e a vitória foi de 50,9% a 49,1%. CNT/MDA e Paraná Pesquisas praticamente acertaram. O primeiro errou por 0,4 ponto e o segundo, por um ponto. Ipec e Atlas Intel erraram feio ao mostrarem larga vantagem para Lula.

Os institutos corrigiram no segundo turno parte dos erros cometidos nos levantamentos do primeiro. Avisavam que Lula teria até mais de 10 pontos de diferença para Bolsonaro na primeira rodada com todos os candidatos. Lula acabou indo para o segundo turno com 48,43% contra 43,20%. Hoje, a diferença no primeiro turno é, na média dos institutos, menos que a metade das previstas em 2022. E que estavam muito erradas.

Sem pedir emprestadas as cabeças dos especialistas e suas métricas, o que as pesquisas diziam há quatro anos e nos dizem agora é mais do mesmo: o bolsonarismo engaja mais do que o lulismo na reta final. Com o mais importante de todos os detalhes sobre as circunstâncias de cada eleição: Bolsonaro era poder em 2022, e Lula é governo agora.

Lula havia saído de 580 dias de cárcere político. Bolsonaro ainda era lembrado pelos crimes da pandemia, entre outros nunca levados a julgamento. O homem que liderou a sabotagem à vacina, que se envolveu em rolos com joias e fraudes de cartão de vacinação, que produziu provas contra si e nunca foi condenado – esse sujeito quase venceu Lula. E só foi contido pela Justiça depois da eleição por tentativa de golpe.

No cenário de hoje, seu filho é comprovadamente parceiro de Daniel Vorcaro. Toda a direita mordia o banqueiro. Todos os crimes pelos quais Flávio foi denunciado são conhecidos e a todo momento rememorados, apesar da impunidade. Flávio e o irmão ainda conspiram contra o Brasil ao lado do fascismo americano. E mesmo assim é ele, e nenhuma outra alternativa à extrema direita bolsonarista, que vai enfrentar Lula no segundo turno.

Lula produziu um conjunto de ações que, em qualquer outro momento, em tempos de aparente normalidade, produziria efeito na base social que o sustenta. Mas hoje nem o esforço para acabar com a escala 6×1 surte o efeito esperado entre os trabalhadores. Nem a isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil.

Nem o fracasso da grande imprensa para tentar provar que seu filho é parte da máfia do INSS ajuda Lula. O que aconteceu de 2022 até aqui para que se repita o cenário daquela e de outras eleições, no qual quem reage, na reta final, é sempre a extrema direita, com o voto “independente” da direita encabulada?

Como Lula no poder não consegue ser o candidato que mais se consolida na reta final? Não chamem os especialistas para que digam o óbvio. O que acontece é que a classe média de machos brancos e ressentidos pela perda de expressão econômica e social continua a mesma e pode ter sido alargada.

E talvez esteja mais ressentida. Essa classe média, que diz definir o voto na última hora, é mais poderosa numérica e politicamente do que os que estão de fora desse contingente, mas na mesma condição de eleitores em dúvida, até dobrarem a esquina no dia do voto em direção à seção eleitoral.

A eleição que será decidida no detalhe está nas mãos desse eleitor, sendo Lula oposição ou governo. O que acontecerá este ano é a repetição do que ocorreu nas últimas eleições. O voto que emerge como capaz de ameaçar Lula é o que se define como de última hora, que as pesquisas não captam direito, mesmo dias antes da eleição.

Em 2022, o Datafolha informou que 7% dos eleitores escolheram o candidato a presidente no dia da votação, no primeiro turno. E os que decidiram na véspera eram 3%. Um em cada 10. No segundo turno, esse índice cai para 6%.

Os que vêm decidindo aos poucos em quem votar, enquanto a eleição se aproxima, acabam decidindo também a eleição. E, nessa reta, pendem mais para a direita, como é a tendência geral do chamado independente, no conjunto da aglutinação dos votos dos candidatos descartados no primeiro turno.

O desafio dessa eleição para quem tenta entender a cabeça do eleitor é, em resumo, este aqui: como, pelo conjunto de falas, atitudes e episódios envolvendo um e outro, Lula e agora Flávio Bolsonaro, como expressões do lulismo e bolsonarismo em condições opostas, enfrentam situação semelhante à de 2022 entre Lula e Jair Bolsonaro? Por que as armas de Lula no poder não o favorecem como governante para enfrentar o crescimento da direita na reta final? 

Respostas aparentemente simples e falsamente óbvias e inquestionáveis não ajudam. Como as de que enfrentamos o aperfeiçoamento das fábricas de fake news, a intensa interferência americana, a anestesia diante de questões consideradas morais e o engajamento suicida da grande imprensa a tudo que possa derrotar Lula. É possível que as melhores tentativas de entender o que acontece hoje sejam bem-sucedidas somente depois da eleição.