Investigação da Agência Pública revela que uma mesma sala comercial em Brasília reúne empresas do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), de seu advogado Willer Tomaz e de pessoas investigadas por desvio de recursos de aposentados do INSS. Na sala 2601 do Edifício Connect Towers, em Águas Claras, estão registradas 90 empresas no papel, entre elas 25 citadas em investigações sobre fraudes no INSS ligadas a Antônio Carlos Camilo Antunes, o 'careca do INSS'.
Um fio condutor une esse emaranhado de negócios: a Voga, um escritório de contabilidade que funciona no prédio desde 2009. A empresa é administrada pela família dos Reis, cujos e-mail e endereço aparecem repetidamente nos cadastros das 90 empresas. Um dos sócios da Voga é Alexandre Caetano dos Reis, preso desde dezembro sob ordem do ministro André Mendonça do Supremo, acusado de atuar como contador de esquemas de lavagem de dinheiro envolvendo empresas do 'careca'. A irmã de Alexandre, Letícia Caetano dos Reis, administra o escritório de advocacia de Flávio.
Willer Tomaz, o advogado investigado ao lado de Flávio no STF por lavagem de dinheiro relacionada a apostas, tem vínculos com essa estrutura. Ele defende a Voga num processo trabalhista e também possui uma empresa registrada na mesma sala, em nome da irmã. A conexão se aprofunda: em setembro de 2025, criou-se a Bonsucesso, consultoria na sala da Voga que foi transferida para São Paulo no mesmo dia. Registrada em nome de Lídia Mazelli, apontada como suposta laranja de Tomaz, a empresa depois migrou para Flavia Oliveira Correa Tomaz, esposa de Willer.
Um processo trabalhista expõe ainda mais as operações da Voga. Um profissional que trabalhou na empresa por mais de dez anos até 2025 acusa a companhia de manter jornada extenuante sem remuneração adequada e, conforme relato, de obrigar funcionários a apagar dados que pudessem comprometer a firma frente ao escândalo do INSS. O denunciante afirma que Alexandre atuava como 'chefe' ordenando destruição de arquivos. A acusação também inclui uso de CPFs de terceiros, conhecidos como 'laranjas', para furtar obrigações legais. Willer Tomaz é o advogado que defende a Voga e a família dos Reis nessa ação. A reportagem procurou posicionamento dele, mas não obteve resposta até a publicação.
Conexão com a família Bolsonaro
A ligação mais direta entre os Bolsonaro e a sala 2601 é a Bravo Grafeno, loja online de capacetes estilizados com as cores da bandeira brasileira. Aberta em junho de 2024, a empresa tem como sócios Flávio, seu irmão Carlos Bolsonaro (recém-eleito senador por Santa Catarina) e outros três. Jair Bolsonaro também já integrou o quadro societário. Entre os sócios está Pedro Luiz Dias Leite, ex-sócio de Marcello de Oliveira Lopes, marqueteiro de Flávio que saiu da pré-campanha em maio. Lopes havia deixado o cargo após revelação de que Flávio solicitou R$ 134 milhões ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, sobre seu pai. A Polícia Federal também identificou repasse de Lopes para a produtora.
Outros investigados na sala
Investigações envolvendo a fraude do INSS incluem outras pessoas com negócios na sala 2601. O economista Rubens Oliveira Costa foi preso em flagrante em 23 de setembro de 2025 por falso testemunho e ocultação de documentos perante a Comissão Parlamentar de Inquéritos do INSS. Três empresas em seu nome — Fronteira Consultoria e Gestão Financeira, Silva e Rodrigues Consultoria e Assessoria Empresarial (Brain Consultoria) e Capify Gestão e Consultoria Financeira — estão registradas na mesma sala. Sua defesa afirma que Costa atuou exclusivamente como administrador financeiro contratado e nunca manteve negócios com políticos ou integrantes da administração pública.
Outro aspecto relevante: o fisioterapeuta Kleber Caiado, que começou a atender Jair Bolsonaro em agosto de 2025 durante sua prisão domiciliar, também possui negócio registrado na sala 2601. Quando Jair foi condenado e transferido para cela da Polícia Federal, sua defesa pediu autorização para que as sessões de fisioterapia com Caiado prosseguissem durante o cumprimento da pena.






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