Um diplomata brasileiro sugere que o Brasil adote uma narrativa de política externa baseada em “trilhas”, focando em paz, cooperação, conhecimento e prosperidade. Esta abordagem diferenciada se distanciaria do discurso tradicional de infraestrutura e projeção geopolítica, buscando uma linguagem diplomática própria. A proposta visa posicionar o Brasil como um ponto de convergência no Sul Global, conectando a América do Sul, África e Ásia.

A distinção central reside entre “rota”, que remete a algo físico e geoeconômico, e “trilha”, que implica um caminho mais humano, gradual e multidimensional. A intenção é não competir com potências como China ou Índia, mas sim exercer um papel de conector entre regiões. O diplomata fundamenta a reflexão em suas experiências em missões na África, Ásia e Índia.

Atlântico Sul como prioridade e o conceito de 'Brasil tri-oceânico'

Para que o país alcance uma inserção estratégica regional e mundial, uma política brasileira para o Atlântico Sul é vista como prioritária. Esta área marítima, crucial para a identidade nacional e por onde passa 95% do comércio exterior, possui vastas riquezas minerais e biológicas ainda não totalmente exploradas. Como a maior nação da região em termos populacionais, geográficos e econômicos, o Brasil deveria assumir mais responsabilidades na segurança e gestão desse espaço, harmonizando interesses entre países africanos e sul-americanos e mantendo a região livre de tensões extrarregionais.

A ideia de um Brasil “tri-oceânico” também é levantada, considerando a influência brasileira nas duas margens do Atlântico e a possibilidade de acesso consolidado ao Pacífico e Índico. Este conceito reforça a visão de um país capaz de aproximar continentes e civilizações, priorizando a cooperação em vez da competição.

'Trilhas de Prosperidade' em diversas áreas

Em contraste com a linguagem da “Belt and Road Initiative” chinesa, que enfatiza rotas e infraestrutura, a proposta brasileira das “Trilhas de Prosperidade” sugere um caminho a ser construído progressivamente. Esta abordagem é compatível com a concepção brasileira de cooperação e permite a exploração de novas oportunidades, intercâmbios e a participação de diversos atores. O conceito de “Trilha” é abrangente e pode incluir diversas áreas, como:

  • Trilhas do Atlântico: Brasil–África.
  • Trilhas dos Oceanos: Atlântico–Índico–Indo-Pacífico.
  • Trilhas do Conhecimento: universidades, ciência e inteligência artificial.
  • Trilhas da Inovação: tecnologia e empreendedorismo.
  • Trilhas da Energia: biocombustíveis, hidrogênio e energias renováveis.
  • Trilhas dos Alimentos: agricultura e segurança alimentar.
  • Trilhas da Cultura: música, cinema, literatura e patrimônio.
  • Trilhas da Juventude: intercâmbio e formação.
  • Trilhas da Economia Azul: oceanos, pesca, biodiversidade e portos.
  • Trilhas Digitais: cabos, dados, conectividade e inteligência artificial.

A vantagem simbólica das “trilhas” é que elas não impõem um caminho rígido, mas permitem descobrir a rota enquanto se avança, o que se alinha com a diplomacia brasileira de não impor, mas de abrir possibilidades. Isso diferencia a proposta de grandes projetos de infraestrutura que podem gerar competição entre potências.