A apresentação de Donald Trump na Assembleia Geral da ONU foi interpretada como uma manifestação de desejo de dominação global, por parte de críticos. A postura do então presidente dos Estados Unidos foi comparada à de um imperador, desprovido de restrições em suas ambições colonialistas. Esta visão de governo encontrou eco em algumas nações sul-americanas, através do apoio ao “Escudo das Américas”, uma iniciativa que, formalmente, visava o combate ao narcotráfico internacional, mas que foi associada a um período de divisão global semelhante à Guerra Fria.

O “Escudo das Américas” foi formalmente apresentado como uma estratégia para combater o narcotráfico, classificado por Trump como terrorismo. Esta iniciativa, no entanto, é vista como uma recriação de uma época em que o mundo era dividido em blocos ideológicos, tendo a China como um novo polo de oposição à hegemonia americana. A verdadeira intenção do programa não seria, para os críticos, a proteção de fronteiras ou o combate ao narcotráfico, mas sim a reafirmação do poder americano em um cenário de multipolaridade.

Relembrando a Guerra Fria

Na era da Guerra Fria, o alinhamento político era frequentemente imposto por intervenções violentas patrocinadas pelos Estados Unidos, como os golpes militares na América Latina, incluindo os ocorridos no Brasil, Argentina e Chile. Com o “Escudo das Américas”, Washington adotou uma abordagem de coalizão voluntária, com governos alinhados ideologicamente ou coagidos. Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e República Dominicana aderiram, enquanto o Brasil, sob o governo Lula, recusou-se a participar, defendendo uma cooperação internacional policial em vez da militarização das fronteiras por uma potência estrangeira.

Apesar de o termo “comunista” ter sido substituído por “terrorista” ou “narcotraficante” para designar o adversário do “Ocidente”, o inimigo ainda é percebido como ideologicamente similar ao do passado. Durante a Guerra Fria, diversas organizações políticas de esquerda foram rotuladas como “terroristas”, muitas delas adotando táticas de guerrilha em resposta à repressão. Exemplos incluem as Farc, Sendero Luminoso, FSLN, ELN, M-19, FMLN, Montoneros, VPR e ALN.

Novos “Inimigos” e a Estratégia de Trump

Atualmente, Trump misturou grupos como o PCC e o Comando Vermelho, facções criminosas de matriz mafiosa, ao colombiano Exército de Libertação Nacional (ELN). O ELN, com origem na década de 1960 como guerrilha revolucionária de esquerda, difere de cartéis de drogas tradicionais por possuir um projeto político e demandas ideológicas claras. Apesar de suas táticas incluírem atentados e sequestros, essas ações são, para alguns analistas, uma resposta à falta de resolução das causas estruturais da insurgência, como a desigualdade agrária e a ausência do Estado. A doutrina de segurança nacional, como o Plano Colômbia, ao focar na eliminação física das guerrilhas, levou à radicalização desses grupos.

A crítica ao “Escudo das Américas” é que ele pode fomentar a radicalização de grupos político-ideológicos, como o ELN, e não seria eficaz contra facções criminosas como o PCC e o Comando Vermelho, que operam por meio de cooptação política e empresarial. Bombardear seus membros não traria resultados significativos, segundo essa análise.