Em uma análise aprofundada sobre a política brasileira e as próximas eleições, o jurista, filósofo e ex-ministro dos Direitos Humanos, Silvio Almeida, propôs uma mudança estratégica para o movimento negro no país. Em um vídeo intitulado “Movimento Negro e as Eleições”, divulgado em seu canal, Almeida argumentou que a população negra, que representa a maioria demográfica do Brasil, não pode mais se portar ou ser tratada como uma minoria que apenas negocia cotas de representação em projetos elaborados por outros grupos. Para ele, a presença negra em instituições é uma conquista histórica essencial, fruto de décadas de luta, mas não deve ser o limite das aspirações políticas.

Almeida destacou que o problema surge quando a representação se torna o objetivo final da política, e ocupar cargos passa a ser mais importante do que influenciar o conteúdo das decisões. Ele criticou o que chamou de liberalismo da diversidade e um “progressismo conservador”, onde a pauta antirracista é cooptada por corporações e fundações financeiras. O ex-ministro apontou a contradição de um modelo que celebra o sucesso individual, enquanto as estruturas de desigualdade e a exploração da classe trabalhadora permanecem intactas.

Crítica ao "progressismo cosmético"

O jurista exemplificou essa questão, afirmando que uma empresa pode ter negros em sua diretoria, mas manter milhares de trabalhadores negros em condições precárias. Da mesma forma, um governo pode falar em diversidade e ainda assim implementar políticas econômicas que aumentam a informalidade e a concentração de riqueza, ou falar em democracia sem agir contra o encarceramento em massa. Ele também questionou a facilidade em conseguir financiamento para discutir diversidade em comparação com temas como propriedade, política industrial e soberania, que são menos receptivos.

Essa dinâmica, segundo Almeida, corre o risco de criar uma elite intelectual apta a gerir a diversidade em instituições já estabelecidas, mas despreparada para debater e disputar as diretrizes do Estado. Para fortalecer o movimento, ele resgatou o pensamento de Alberto Guerreiro Ramos, que já nos anos 1950 denunciava a redução do negro a um mero objeto de estudo. A tarefa atual é posicionar o negro como intérprete e construtor de todo o país. Almeida alertou que a "experiência em consciência política exige estudo, formação intelectual, organização e capacidade de relacionar a própria condição às determinações mais amplas da sociedade brasileira”.

Racismo, dependência econômica e autocracia

Silvio Almeida apresentou um tripé analítico para entender as raízes do subdesenvolvimento e da violência estrutural no Brasil: a dependência econômica, que subordina o país aos centros do capitalismo global; o racismo estrutural, que organiza a divisão social do trabalho e legitima a mão de obra barata; e a autocracia burguesa, que representa a aversão das classes dominantes à participação popular no poder. Ele enfatizou que questões como a segurança pública não podem ser limitadas à indignação moral, mas exigem disputa orçamentária e formulação técnica sobre diversos aspectos, desde a atuação policial até a inteligência do Estado.

Olhando para o futuro, Silvio Almeida convocou as forças progressistas a transformar a presença conquistada por meio de cotas em soberania e planejamento estratégico nacional. Ele defendeu que a agenda negra deve se tornar um projeto de nação com projeção internacional, alinhado com os países do Sul Global, incluindo a América Latina, a África e as nações emergentes. Para o ex-ministro, é fundamental ter economistas, engenheiros, juristas e professores negros atuando em áreas estratégicas para disputar o destino do Brasil.