Um grupo de senadores democratas dos Estados Unidos enviou uma correspondência ao governo de Donald Trump, manifestando preocupação com qualquer potencial intervenção no processo eleitoral brasileiro. A carta, divulgada próximo à eleição presidencial de 4 de outubro, foi endereçada ao secretário de Estado, Marco Rubio, e questiona a posição de Washington sobre o pleito.

Os senadores Jeanne Shaheen, Tim Kaine e Peter Welch indagaram se o governo norte-americano se comprometeria a reconhecer o resultado certificado das eleições democráticas de 2026 no Brasil e a manter relações diplomáticas normais com o candidato legitimamente escolhido. Embora o presidente Donald Trump tenha celebrado vitórias de políticos de extrema-direita em outros países da América Latina, ele não declarou explicitamente apoio a nenhum candidato na disputa brasileira, mas indicou preferência pelo senador Flávio Bolsonaro (PL).

Preocupação com assessor e atritos diplomáticos

Os senadores democratas expressaram particular apreensão com a atuação de Darren Beattie, assessor sênior do Departamento de Estado para Assuntos do Hemisfério Ocidental. Eles o descreveram como o principal articulador de ações agressivas contra a democracia brasileira, citando seu histórico de declarações que, segundo os parlamentares, sinalizam um compromisso em minar as instituições democráticas do Brasil e promover interesses da extrema-direita.

Beattie, que trabalhou na primeira gestão de Trump e foi demitido de sua função como redator de discursos, é conhecido por fundar o veículo Revolver News, que amplifica teorias conspiratórias sobre eventos como a invasão ao Capitólio. Ele assumiu sua função atual no Departamento de Estado em fevereiro, sem sabatina ou confirmação do Senado, e tem sido uma voz ativa na política externa para o Brasil desde novembro de 2025.

Em março, Beattie teve seu visto de entrada negado pelo governo brasileiro, em meio a tensões diplomáticas. O presidente Lula (PT) declarou que a negativa ocorreu após o governo Trump impedir a viagem do ministro da Saúde, Alexandre Padilha (PT), aos Estados Unidos. O Ministério das Relações Exteriores do Brasil alegou que o assessor omitiu ou falsificou informações sobre o motivo da visita.

Relações abaladas e riscos à estabilidade

O episódio do visto é um dos recentes pontos de atrito entre a Casa Branca e o governo Lula. Em maio, Trump recebeu Flávio Bolsonaro no Salão Oval e, posteriormente, classificou o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas, medida criticada por Lula como interferência inaceitável. Em julho, os EUA impuseram tarifas de 25% sobre produtos brasileiros, alegando práticas comerciais desleais, após uma investigação que se seguiu a embates entre os chefes de Estado.

Diante desse cenário, os senadores reiteraram na carta que as ações de Washington representam um risco significativo para a estabilidade regional e a cooperação bilateral. Eles alertaram que, em vez de apoiar a democracia brasileira, os Estados Unidos estão aplicando pressão diplomática, econômica e política que pode enfraquecer as instituições democráticas do país e minar a confiança no processo eleitoral, prejudicando o relacionamento com um parceiro comercial e aliado estratégico.

Os democratas concluíram que essas ações refletem um padrão preocupante de interferência do governo Trump em processos eleitorais na América Latina, o que não apenas compromete a integridade eleitoral em países individuais, mas também erode a confiança pública nas instituições democráticas da região.