Durante um discurso em 30 de setembro na Base do Corpo de Fuzileiros Navais em Quantico, Virgínia, o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, gerou controvérsia ao abordar critérios de pertencimento militar. Em sua fala sobre o “Estado da Força”, Hegseth utilizou a frase: “No fatties, no trannies, no beardos, no weirdos, no wimps, no radicals. Just warriors” (Nada de gordos, nada de travestis, nada de barbudos, nada de esquisitos, nada de fracotes, nada de radicais. Apenas guerreiros).
A expressão “trannies”, especificamente, é vista como um termo pejorativo e ofensivo direcionado a pessoas trans, e a declaração como um todo foi interpretada como uma redefinição do perfil considerado legítimo para integrar as Forças Armadas. Hegseth apresentou a frase como uma “tradução simples” de sua visão de que o Departamento de Defesa não seria mais “woke” nem “fraco”, enfatizando a necessidade de foco em treinamento, prontidão, responsabilização, disciplina e letalidade.
A semiótica da exclusão
A fala de Hegseth organizou uma categorização excludente, contrapondo o termo “guerreiro” a uma lista de características e grupos. A palavra “guerreiro” neste contexto, vai além da função militar, transformando-se em um signo de pertencimento que implica um modelo corporal, comportamental e ideológico específico. A oposição estabelecida não é apenas entre militar e civil, mas entre corpos considerados “reconhecíveis” e “suspeitos”.
Os grupos citados – pessoas gordas, trans, barbudas, “esquisitas”, “fracas” e “radicais” – são unificados pela transformação de suas diferenças em marcas de inadequação. O modelo “guerreiro” é construído como um padrão positivo, enquanto os demais são apresentados como seu avesso, dependendo do que o “guerreiro” não pode ser. Dessa forma, o corpo se torna um documento de pertencimento, com a masculinidade militarizada ditando as normas de força e disciplina.
Discurso e contexto político
O discurso de Hegseth se insere em uma política mais ampla, que inclui a redução de 20% nos postos de generais e almirantes, conforme noticiado pelo Washington Post. Essa medida foi descrita como parte de uma reorganização da estrutura de comando. A dimensão administrativa e a discursiva convergem para a mesma lógica de redução, seleção e depuração, onde a linguagem militar serve como metáfora para identificar e remover o que não se ajusta ao modelo de força.
A escolha de termos como “tranny” não é vista como um detalhe linguístico, mas como um instrumento político que posiciona grupos de forma depreciada, retirando-lhes a capacidade de autodenominação. A linguagem, neste cenário, não apenas representa, mas também participa ativamente da produção de relações de poder, estabelecendo quem é considerado um sujeito legítimo e quem é visto como um desvio. A questão levantada em Quantico, portanto, transcende a ofensa, interrogando quem pode ser um sujeito de força dentro das Forças Armadas e como essa exclusão se torna semiótica antes de se concretizar administrativamente.






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