A morte de João Pinheiro Neto em 2006 não encerrou a discussão sobre os desafios enfrentados pelo Brasil. Filho do ex-ministro e neto de João Pinheiro, ex-presidente de Minas Gerais, reflete sobre como seu pai encararia o cenário político e social do país se retornasse hoje, duas décadas depois. A indagação central é se as questões que nortearam a vida de João Pinheiro Neto, como a concentração de terras, a estrutura financeira e a educação, teriam encontrado soluções ou se perpetuam no debate nacional.

Um Olhar para o Passado e o Presente

João Pinheiro Neto, nascido em 1928, dedicou sua vida às questões sociais e ao desenvolvimento brasileiro. Formado em Direito, foi ministro do Trabalho de João Goulart e presidente da SUPRA, atuando na reforma agrária. Sua trajetória foi marcada pela prisão e cassação de direitos políticos após o golpe de 1964, sendo defendido por Sobral Pinto. Mais tarde, publicou "Jango, um depoimento pessoal" em 1993, buscando entender o Brasil e aquele período.

Ao imaginar o retorno de Pinheiro Neto em 2026, a primeira surpresa seria a ausência da reforma agrária no centro do debate político, apesar da extraordinária concentração de terras. O Censo Agropecuário revela que 1% dos estabelecimentos rurais detêm quase metade da área total. O antigo latifúndio, agora modernizado e chamado de agronegócio, mantém a questão da propriedade da terra como um desafio.

No setor financeiro, ele encontraria um sistema infinitamente maior e mais sofisticado, mas com juros ainda muito elevados, questionando como o país, ávido por investimento e crescimento, destina tanta riqueza para remunerar o capital.

Educação e Democracia: Avanços e Retrocessos

Na educação, Pinheiro Neto notaria avanços, como a queda do analfabetismo e a expansão do acesso à escola e universidades. No entanto, ainda há milhões de brasileiros que não dominam a leitura e a escrita, e o modelo de escola em tempo integral ainda não atinge a todos. Ele, provavelmente, se perguntaria sobre a lentidão dessas mudanças.

A maior perplexidade, contudo, seria descobrir que a tentativa de ruptura da ordem democrática de 1964, que ele acreditava pertencer ao passado, ressurgiu. A descoberta de que os responsáveis foram julgados pelo Supremo Tribunal Federal, somada à interferência externa no debate político brasileiro, o faria relembrar o preço da ruptura institucional que ele próprio pagou com a prisão e perseguição.

O Brasil, de fato, mudou nos últimos sessenta anos. Contudo, a grande decepção de João Pinheiro Neto seria perceber a persistência de estruturas que sua geração tentou reformar. A concentração de terras, o gigantismo do sistema financeiro, os juros altos, a desigualdade e a educação ainda clamam por transformações. A democracia, inclusive, voltou a ser testada.

A conclusão, talvez, seria que o Brasil sempre teve diagnósticos claros, mas faltou força e disposição política para enfrentar os poderosos interesses que impedem as mudanças estruturais. A questão final seria em quem João Pinheiro Neto votaria em uma eleição futura, uma pergunta sem resposta, mas com a certeza de que suas convicções ditariam a escolha por um país mais justo e equitativo.