Milhares de peregrinos de diversas regiões do país, incluindo Piracicaba, Mombuca, Rafard e São Pedro, percorrem anualmente os acostamentos de rodovias para chegar ao santuário de Nossa Senhora Aparecida. No dia 12 de outubro, data da aparição da Virgem, a celebração e a fé se intensificam, reunindo mais de 40 mil fiéis na Basílica, um centro católico de grande exuberância.

Em 2022, a Basílica foi palco de um incidente de intolerância religiosa. Um grupo de bolsonaristas profanou o templo mariano, agredindo fiéis que vestiam vermelho. O ato foi interpretado como uma manifestação política, ignorando o significado do vermelho na fé católica, que representa a devoção profunda, o sangue dos mártires e o fogo do Espírito Santo. Os agressores, descritos como embriagados e violentos, também proferiram injúrias contra o arcebispo de Aparecida, Dom Orlando Brandes.

Histórico de perseguições e propostas polêmicas

A perseguição à imagem de Nossa Senhora Aparecida não é um fenômeno recente. Em 12 de outubro de 1995, o pastor Sérgio Von Helder, da Universal do Reino de Deus, chutou a imagem consagrada. Anos depois, em 2007, o pastor evangélico da Assembleia de Deus, Victório Galli, protocolou o Projeto de Lei 2623/2007, que visava destituir Maria como Padroeira do Brasil e revogar o feriado em sua homenagem. Embora a proposta não tenha sido aprovada na época, Galli retornou ao cenário político em 2019 como assessor especial da Presidência de Bolsonaro, mas foi afastado devido a uma condenação judicial. Atualmente, ele se apresenta como candidato.

Outros episódios demonstram a tensão entre fé e política. Em 2020, bispos católicos, incluindo o cardeal Hummes – considerado um importante eleitor do Papa Francisco –, foram alvo de espionagem pela “Abin paralela”. O Papa Francisco, por sua vez, também já foi alvo de ofensas por parte de bolsonaristas de Piracicaba. Esses incidentes, somados aos ataques a outras crenças e terreiros, são vistos como parte de um avanço do racismo religioso e de uma estratégia de poder.

A atuação de Michele Bolsonaro e o futuro da Padroeira

A primeira-dama, Michele Bolsonaro, é apontada como uma figura central nesse contexto. Sua postura e “evangelismo chique” são interpretados como uma tentativa de impor suas crenças, atentando contra o estado laico, a Constituição e a democracia brasileira. O jornalista Octavio Guedes alerta para a possibilidade de que, caso eleito, Flávio Bolsonaro resgate o Projeto de Lei de 2007, visando destituir a Padroeira e o feriado de Nossa Senhora Aparecida. Embora Flávio Bolsonaro tenha negado peremptoriamente a existência de tal projeto, afirmando que seria uma “grande mentira”, o texto sugere que o projeto existe e pode ser reativado se houver maioria favorável entre os parlamentares.

A situação é descrita como um conflito entre os valores da fé e os interesses políticos de grupos específicos. A menção aos “adoradores da especulação monetária” e à compra de “voz e silêncio dos poderes da república” sugere uma crítica à corrupção e à influência do poder econômico no cenário político brasileiro, contrastando com a simplicidade e a devoção dos fiéis de Nossa Senhora Aparecida.