Há algum tempo, estamos sendo constantemente impactados por escabrosos escândalos de grande corrupção nos quais os principais protagonistas são pessoas que costumam arvorar-se em representantes dos preceitos de Deus junto a nosso povo.
Entre os casos que receberam mais destaque encontram-se os golpes de centenas de bilhões de reais contra fundos públicos de pensionistas e aposentados, cometidos sob o comando da cúpula do Banco Master, quase toda ela composta por altos dirigentes de igrejas que se dizem ligadas ao cristianismo; também estão as falcatruas praticadas por um instituto de propriedade de alguém que ocupa um posto na mais elevada hierarquia do sistema judiciário brasileiro, ao qual foi designado com base na argumentação de ser “terrivelmente evangélico”.
Embora, particularmente, eu não creia que o significado atribuído a Deus e a fé que se possa nele ter implique que o mesmo tenha responsabilidade direta pela monstruosa roubalheira que vem sendo executada, somos forçados a trazê-lo para o centro do debate, devido à circunstância de que os principais meliantes envolvidos nessas tramoias integram o grupo de dirigentes que comandam boa parte das instituições que se apresentam como legítimas representantes de Deus e fieis zeladoras pelo cumprimento do legado de seu filho Jesus.
Por isso, sem a mínima intenção de entrar em controvérsias sobre disputas filosóficas entre materialistas e espiritualistas, gostaria de focar a reflexão nos pontos que me parecem ser os que, de fato, têm relevância real para o transcurso de nossa vida em sociedade. Em função disto, vou esboçar algumas palavras dirigidas especialmente aos que se incluem entre os seguidores sinceros de Jesus. Julgo tratar-se de algo imprescindível para que tenhamos plena compreensão do que devemos entender ao referirmo-nos a Deus e seus desígnios e, mais ainda, em relação a Jesus.
Parece-me lógico e coerente que todos os que estão convictos de que o mundo é o fruto da obra de um Criador devem também levar em conta as qualidades e especificidades com as quais os seres humanos foram criados. É que, diferentemente do que ocorre com todas as formas de vida conhecidas, nós estamos dotados da exclusiva capacidade de raciocinar.
Sabemos que todas as demais espécies animais comportam-se fundamentalmente com base em instintos que lhes são inerentes. Já os humanos, antes de decidirem qual atitude tomar, contam com a extraordinária faculdade de refletir a respeito do mundo que os circunscreve para ponderar e avaliar o que lhes parece certo e conveniente. Isto claramente assinala o nível de responsabilidade que nos cabe em todas as opções que venhamos a fazer.
É este mesmo potencial reflexivo o que nos possibilita, inclusive, ter consciência do significado e da validade em obedecer ao próprio ser que entendemos como nosso criador. Temos plenas condições de concluir que o Deus verdadeiro que merece ser respeitado e seguido deve, necessariamente, estar inteiramente voltado para causas em que prevaleçam a justiça e a bondade em relação a todos. Não teria nenhum sentido segui-lo tão somente por ser ele todo poderoso.
Portanto, estamos aptos a rechaçar quaisquer indicações que pretendam direcionar-nos no rumo da maldade. Absolutamente, nenhuma instrução para a prática de perversidades deveria ser acatada, por mais que nos tenha sido dada em nome de Deus. O que nos permite agir assim é a capacidade de raciocínio da qual estamos dotados. E o fato de termos sido gerados com esta exclusiva capacidade é uma prova de que nosso criador espera que venhamos a usá-la.
Tendo isto em mente, torna-se mais fácil detectar certas grosseiras manipulações executadas por gente mal-intencionada com o propósito de extrair vantagens por meio da difusão de perversidades travestidas de palavras divinas. Tal tergiversação humana de certos aspectos de crenças institucionalizadas parece estar estendido a maioria das religiões conhecidas, e não apenas em textos do judaísmo e do cristianismo. Mas, como o último se tornou uma corrente religiosa com tremenda influência em todo o planeta, gostaria de fazer menção a algumas das aberrações que trato de ressaltar.
Em termos de uma ética de justiça e equanimidade, é inaceitável as inserções constantes em escritos do Velho Testamento que referem-se a um certo povo como o escolhido de Deus. Ainda que possam ser entendidas do ponto de vista histórico como derivação das disputas por terras e recursos entre povos da Antiguidade, estender este conceito até os dias atuais e dar-lhe validade equivale a admitir que Deus é um racista dos mais empedernidos, um ser cruel e perverso. Se assim fosse, o certo seria que o rechaçássemos com toda firmeza, pois não passaria de uma outra versão do diabo. Na verdade, a magnanimidade do conceito de Deus só deveria advir de sua disposição de tratar em igualdade a todas as suas criaturas, sem nunca privilegiar uns em detrimento dos outros.
Contudo, se as manipulações em torno dos textos veterotestamentários já são horripilantes e inadmissíveis, as que envolvem a figura de Jesus são ainda mais abjetas e criminosas. E merecem ser assim qualificadas porque invertem de maneira canalha todo o significado que os relatos de sua vida estampados nos Evangelhos nos transmitem. Amparados em inescrupulosas deturpações, a glorificação do acúmulo avarento de riqueza pessoal passou a ser feita em nome de quem dizia ser mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico ser admitido em seu reino.
É esta monstruosa inversão dos valores praticados pelo Nazareno por parte de certos elementos que se autodenominam líderes de igrejas cristãs o que lhes faz ser implacáveis e inclementes com os bandidos de baixo nível social, ao mesmo tempo em que participam como sócios solidários daqueles que roubam bilhões e bilhões do povo carente.
Apesar de não dispor de elementos que me possibilitem ter certeza de que o Jesus dos relatos dos Evangelhos seja uma figura com existência histórica comprovada, os ensinamentos ali expostos em seu nome são inteiramente válidos e dignos de serem abraçados por todos os que colocam como a razão principal da vida a busca permanente por alcançar um mundo onde imperem a justiça e a solidariedade.
Portanto, sejamos ou não religiosos, o ideal que caracteriza o Jesus ser humano nos inspira a seguir lutando para que não haja mais crianças desamparadas perambulando pelas ruas, para que nem a miséria nem a fome continuem afligindo a tantos seres humanos, enquanto uns poucos se locupletam à custa da exploração desenfreada das maiorias.
Com o comportamento e palavras de seu dia a dia, Jesus nos demonstra que nenhum escrito atribuído a Deus pode confrontar o que a compreensão de nossa mente e nosso coração nos revelam ser o caminho a seguir. Para estar de verdade com ele em sua trajetória, é preciso imbuir-se de seus sentimentos e de sua disposição a atuar em sintonia com os mesmos.
Em consonância com o anterior, tenhamos ou não alguma crença religiosa, não há dúvidas de que estar com o Jesus de verdade é o que pode levar-nos ao Deus de verdade. Entretanto, o oposto tem equivalente validade: se atuarmos em contradição com os ideais de Jesus, estaremos no bando de seus inimigos, por mais que nos atrevamos a invocar seu nome.






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