Durante participação em um podcast, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez duras críticas ao que considerou o papel da mídia corporativa brasileira na sua prisão política por 580 dias. Lula mirou na TV Globo e na Operação Lava Jato, traçando um paralelo com o apoio da emissora à ditadura militar iniciada em 1964. Segundo o presidente, as acusações que o levaram à prisão não foram seguidas por pedidos de desculpas, mas ele acredita que um dia isso ocorrerá, citando o reconhecimento tardio da Globo sobre o golpe militar.

O presidente afirmou que a imprensa teria “avacalhado” sua vida e que, assim como a Globo reconheceu o golpe militar após 50 anos, talvez um dia reconheça sua inocência e que “prestou serviço a um crápula como o Moro”. Essa declaração foi feita dias antes do primeiro turno das eleições, período em que Lula justificou sua ausência em um debate tradicional da emissora, preferindo uma transmissão independente para falar abertamente.

Crítica à cobertura midiática e 'lawfare'

Lula apontou que a cobertura midiática se alinhou à operação Lava Jato, comandada pelo então juiz Sergio Moro e pelo ex-procurador Deltan Dallagnol. Ele descreveu essa união como uma estratégia deliberada para sua condenação prévia pela opinião pública, visando inviabilizar sua candidatura em 2018 e abrir caminho para a extrema direita. O presidente lembrou de acusações como a de que possuía uma chácara e um apartamento no Guarujá, afirmando que nunca conseguiram provar que eram seus, e que atualmente ele processa a empresa pelo dinheiro das parcelas do consórcio do imóvel no Guarujá.

O presidente explicou que sua decisão de se entregar em São Bernardo do Campo, em abril de 2018, e permanecer na carceragem da Polícia Federal em Curitiba, foi um ato de coragem política para desmascarar o que ele chamou de farsa. Ele afirmou que poderia ter saído do Brasil ou procurado uma embaixada, mas preferiu ir para a Polícia Federal para provar o caráter dos envolvidos na operação e a cumplicidade da imprensa brasileira.

Paralelos históricos e desafios

Ao mencionar o “mea-culpa” tardio da emissora sobre a ditadura militar – um editorial de 2013, quase meio século após o golpe – Lula tocou em um ponto sensível da memória política brasileira. Para ele, a Lava Jato seguiu um roteiro semelhante de consórcio entre setores do Judiciário e a mídia. Ele recordou ainda o histórico de manipulações e perseguições da emissora em suas disputas eleitorais desde a redemocratização, como a edição do debate de 1989 e a ausência em debates posteriores.

Questionado sobre a cobertura diária e a proliferação de denúncias sem provas, Lula reafirmou sua integridade. Ele desafiou empresários, banqueiros e adversários a mostrarem um centavo ilícito em sua conta bancária ou alguém que tenha lhe pedido ou oferecido vantagens. O presidente concluiu resgatando os ensinamentos de sua mãe, Dona Lindu, sobre caráter e dignidade, afirmando que a história já colocou cada um em seu lugar e que a verdade sobre a farsa montada está gravada para sempre, enquanto “o Moro virou um pária político”.