Em ambientes de poder, sejam eles públicos ou privados, as fotografias frequentemente mostram homens alinhados, apertando mãos, sorrindo e posando. Essas imagens, apesar de distintas, parecem pertencer a uma mesma representação simbólica, indicando uma rede de reconhecimento e circulação entre eles. Tais homens, em geral, não precisam justificar sua presença nesses locais, como se o acesso a esses espaços fosse um direito inato.

A fotografia oficial, embora pareça um mero registro, narra uma história sobre quem detém a autoridade para ocupar o espaço público. Ela não apenas documenta um encontro, mas também revela um pacto silencioso, que se manifesta nos gestos, roupas e posturas. Teóricos como Pierre Bourdieu e Eve Kosofsky Sedgwick abordaram como o poder se inscreve nos corpos e na homossociabilidade, respectivamente, enquanto Cida Bento, ao analisar os pactos narcísicos da branquitude, expõe como privilégios são preservados pela legitimação entre semelhantes.

Desconforto e transformação na imagem

Quando uma travesti entra nessa fotografia, a dinâmica muda. Não se trata necessariamente de palavras ofensivas, mas de reações corporais: recuo, desvio de olhar, conversas abruptas ou a busca por uma distância segura. Um aperto de mão pode parecer calculado, e a proximidade, mais uma preocupação do que um genuíno diálogo. Essa reação é observada em diversos contextos, inclusive em certos homens evangélicos que ocupam espaços políticos e institucionais. É importante ressaltar que não se refere à população evangélica em geral, mas a determinadas formas de masculinidade religiosa que demonstram desconforto visível diante da presença travesti, muitas vezes por receio do que essa aproximação pode significar perante outros.

Travestis, por sua experiência, desenvolvem a capacidade de perceber essas sutilezas – um sorriso espontâneo ou protocolar, uma mão estendida por contato ou pela presença de uma câmera. A fotografia, nesse sentido, revela essas nuances. Autoras como Judith Butler e Berenice Bento já discutiram como alguns corpos são socialmente reconhecidos, enquanto outros são empurrados para zonas de menor inteligibilidade. A presença de uma travesti em espaços de poder gera desconforto porque ela questiona a estrutura que preferiria não fazer a pergunta: quem pode ser reconhecido como autoridade? Quem pode representar? Quem pode sentar à mesa sem que sua presença se torne o assunto principal?

Para além do registro: a fotobiografia

O desejo de não apenas aparecer na fotografia, mas de existir nela com naturalidade, é central. Que uma conversa seja apenas uma conversa, e um aperto de mão, apenas um cumprimento, sem a necessidade de interpretações políticas ou o receio de ser fotografado ao lado de uma travesti. O problema não é apenas a ausência de corpos diversos nas imagens de poder, mas a estrutura que produz essa ausência e a apresenta como algo natural.

A fotografia, como expõem Valentin Bardawil e Christine Delory-Momberger, com base em teóricas como Susan Sontag, transcende um simples registro. Ela se torna fotobiografia, uma forma de construir a própria história através da imagem, da memória e da comunidade. O íntimo se transforma em matéria de elaboração e performance. Cada fotografia escolhe o que mostrar e como narrar uma existência, transformando a experiência individual em memória compartilhada. Ela funciona como um documento que registra quem esteve presente, quem foi reconhecido, quem permaneceu invisível, e quem, finalmente, decidiu aparecer, revelando não só quem se sente autorizado a ocupar aquele espaço, mas também quem carrega a memória de ter sido repetidamente convidado a permanecer à margem.