O Brasil encontra-se em um momento crucial que exige mais do que apenas crescimento econômico para redefinir seu futuro. Diferentemente do século XX, quando o desenvolvimento era balizado por metas claras como industrialização e urbanização, a referência atual carece de nitidez. O futuro, que antes era uma promessa automática de progresso, necessita agora de uma construção política, econômica e social ativa. Isso implica repensar o conceito de desenvolvimento em um cenário de crise climática, revolução digital, financeirização e reorganização geoeconômica, que também transformam as formas de trabalho, produção e sociabilidade.

A convicção de um futuro melhor, uma das grandes promessas da modernidade, começou a se dissipar no século XXI. Enquanto a ascensão da Ásia, especialmente da China, altera o eixo econômico global, a crise climática expõe os limites da expansão material. A revolução digital, por sua vez, amplia a capacidade de processamento de informações, mas também concentra poder. Paralelamente, a financeirização impulsiona o crescimento da riqueza abstrata, mesmo com o aumento da insegurança social. A hiperconectividade, ao multiplicar a comunicação, transforma a atenção e o tempo em recursos cada vez mais escassos.

Novos Paradigmas para o Desenvolvimento Brasileiro

A questão central não é mais apenas como crescer, mas qual tipo de desenvolvimento faz sentido e quem tem a capacidade de orientá-lo. O Antropoceno evidenciou que a humanidade não está separada da natureza e que suas ações moldam as condições para a continuidade da vida social. Dessa forma, o futuro passa a ser uma consequência direta das decisões tomadas no presente.

Para o Brasil, essa transformação ocorre em um momento ambíguo. No século passado, o país passou por rápidas mudanças estruturais, saindo de uma economia predominantemente rural e primário-exportadora para se tornar uma sociedade urbana e industrial. Contudo, essa transformação permaneceu inacabada. Desde os anos 1990, o Brasil experimentou uma perda de densidade industrial, justamente quando uma nova revolução tecnológica remodelava a economia global. A financeirização, a especialização produtiva e a fragmentação das cadeias globais reduziram a capacidade nacional de produzir tecnologias e bens mais complexos.

A solução, portanto, não reside em simplesmente restaurar o modelo desenvolvimentista do século passado. A indústria atual integra software, inteligência artificial, sensores, dados, novos materiais, automação e serviços especializados. A agricultura moderna é cada vez mais dependente de genética, máquinas, satélites e informação. As infraestruturas física e digital tornaram-se inseparáveis. Diante desse cenário, o Brasil não precisa escolher entre ser uma potência agrícola, industrial, energética, ambiental ou digital, mas sim integrar essas dimensões.

Potencial e Armadilhas da Transição

A emergência climática oferece uma oportunidade única, pois poucos países possuem simultaneamente água, biodiversidade, biomassa, terras produtivas, potenciais hidrelétrico, solar e eólico, reservas minerais e capacidade científica. No entanto, essa abundância também pode ser uma armadilha. O país corre o risco de exportar matérias-primas como lítio e minerais estratégicos, importando produtos tecnológicos acabados, ou de produzir energia limpa e biomassa, mas adquirir bens industriais sofisticados de outros países. Para ser uma potência ambiental e não apenas uma periferia verde, o Brasil precisa transformar recursos naturais em conhecimento, tecnologia e produção.

A relação com a China exemplifica essa dinâmica. Embora a ascensão chinesa ofereça novos mercados e investimentos, também pode perpetuar um padrão de exportação de matérias-primas e importação de produtos industriais, o que representa uma mera troca do centro de dependência, e não sua superação. O importante é garantir que investimentos estrangeiros resultem em transferência de conhecimento, tecnologia, empregos qualificados e capacidade produtiva dentro do país. O mesmo se aplica à infraestrutura: ferrovias e portos devem servir não apenas à exportação de commodities, mas também ao desenvolvimento tecnológico e à criação de cadeias produtivas locais.

A energia é crucial nessa transformação. Após milênios de dependência dos fluxos naturais e séculos de uso intensivo de combustíveis fósseis, o século XXI exige uma transição para fontes renováveis, como sol, vento e água, apoiada por redes elétricas, sistemas de armazenamento e inteligência computacional. O Brasil possui condições extraordinárias para essa transição. Contudo, ter energia não garante soberania energética; o fundamental é como o excedente desses recursos é utilizado. A riqueza do petróleo, por exemplo, pode financiar ciência, infraestrutura e tecnologias para uma economia menos dependente de combustíveis fósseis, aproveitando os estoques para construir uma economia de fluxos renováveis.

A transformação atual vai além da produção, alterando a experiência cotidiana. Se a sociedade agrária seguia o ritmo da natureza e a industrial o relógio mecânico da fábrica, a sociedade digital é regida pelo algoritmo. Este não apenas marca o tempo, mas classifica, recomenda e antecipa comportamentos. A tecnologia, que prometia economizar tempo, criou um paradoxo: quanto mais rapidamente se realizam tarefas, mais tarefas surgem, gerando uma nova desigualdade no acesso e uso do tempo. A informação é abundante, mas a atenção é escassa, e o silêncio tornou-se um privilégio na sociedade hiperconectada. A inteligência artificial aprofunda essa transformação, com máquinas participando diretamente da escrita, análise e tomada de decisões. O desafio não é impedir a IA, mas decidir quanta capacidade de pensamento queremos delegar.

Nesse ponto, a tecnologia encontra o problema institucional. A produção, finanças e informação são organizadas em redes globais. Plataformas coordenam bilhões de pessoas, empresas operam em diversos países, e organizações criminosas e religiosas aprenderam a funcionar em redes. Em contraste, o Estado, concebido na era industrial, muitas vezes permanece fragmentado e pouco integrado. A questão não é o tamanho do Estado, mas sua capacidade de produzir informações, integrar dados, planejar, regular e antecipar riscos. O Estado desenvolvimentista do século XX atuava na industrialização de uma sociedade agrária. O Estado da era digital precisa manter sua capacidade transformadora, incorporando novas dimensões como a sustentabilidade ecológica e a atuação preditiva. Isso significa antecipar eventos e tendências como inundações, transformações demográficas, mudanças no trabalho e dependências produtivas para que a atuação estatal evite crises futuras.