A recente visita de Estado do líder chinês Xi Jinping aos Estados Unidos, entre 23 e 25 de setembro, chamou a atenção não apenas pelos encontros diplomáticos, mas também pelas escolhas de vestuário da primeira-dama Peng Liyuan e da delegação chinesa. Longe dos trajes ocidentais habituais, as roupas escolhidas por Peng e Xi foram interpretadas como uma poderosa declaração cultural e política.

Peng Liyuan, que já possuía grande prestígio como artista antes de se tornar primeira-dama, tem sua imagem pública estrategicamente construída para projetar uma China que abraça a modernidade sem renunciar à sua herança. Seus trajes, com cortes, tecidos e referências tradicionais, são vistos como uma forma de “soft power”, transmitindo uma narrativa do país. A escolha de vestuário na Casa Branca reforçou essa estratégia, mostrando uma China que, além de potência produtiva, também se firma como criadora de estética e tendências.

A moda como linguagem política

A dupla composta por Xi Jinping e Peng Liyuan frequentemente coordena suas aparições visuais. Em eventos de grande significado, Xi opta pelo zhongshan zhuang, conhecido no Ocidente como “terno Mao”, uma peça que simboliza a criação de uma vestimenta moderna e chinesa. O zhongshan zhuang, criado no início do século XX e associado a Sun Zhongshan, ganhou significados de igualdade e soberania sob Mao Zedong, e é usado por Xi em momentos de forte carga histórica, não como nostalgia, mas como linguagem política. Peng, por sua vez, apresenta releituras contemporâneas do qipao, que mesclam a tradição com toques atuais, evitando a cópia literal e demonstrando uma modernidade chinesa autêntica.

Essa abordagem foi evidente durante os três dias da visita. Na chegada, em 23 de setembro, Peng utilizou um vestido midi cinza-claro, sóbrio e elegante, com discretas referências chinesas, sem aderir completamente ao protocolo diplomático ocidental. Já na cerimônia de boas-vindas na Casa Branca, em 24 de setembro, a primeira-dama chinesa vestiu um traje azul-marinho com gola que remetia à tradição chinesa, uma releitura contemporânea do qipao. Essa escolha se tornou ainda mais significativa quando Peng visitou o Smithsonian National Museum of Asian Art com Melania Trump, onde a vestimenta se harmonizou com o ambiente de arte e cultura asiáticas.

Destaque na noite de gala

O ponto alto da simbologia ocorreu no jantar de Estado, na noite de 24 de setembro, na East Room da Casa Branca. A decoração do ambiente foi dominada pela cor vermelha, que na cultura chinesa simboliza felicidade, boa sorte e prosperidade, além de ser a cor do emblema nacional. Nesse cenário, Peng surgiu com um vestido longo vermelho, com gola mandarim e adornado com pérolas brancas. A cor, o corte e a gola remeteram claramente aos códigos estéticos chineses, sem reproduzir um traje histórico de forma literal. Essa escolha, alinhada à presença de Xi Jinping, reforçou a intenção de narrar a história e a identidade chinesa através da própria voz e da própria roupa, construindo uma imagem de modernidade que celebra a tradição.