A direção do Partido dos Trabalhadores (PT) identificou indícios de violência política de gênero contra mulheres candidatas da legenda nas eleições de 2026. Segundo o partido, as agressões incluem ameaças de morte, violência sexual, racismo, exposição de dados pessoais e ataques a familiares. A sigla atribui esses atos a grupos masculinistas ligados à extrema direita, que teriam como objetivo intimidar as candidatas e afastá-las da disputa eleitoral.

Até a última terça-feira, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) havia registrado 177 processos relacionados à violência política de gênero em 2026, um número que já supera em mais de duas vezes o total de 78 processos contabilizados em todo o ano eleitoral de 2024, representando um aumento de 126,9%. Mulheres representam 34,85% das candidaturas neste ano, totalizando cerca de 7,1 mil postulantes entre os 20,5 mil candidatos em disputas para diversos cargos.

Padrão de ataques e iniciativas de apoio

Mazé Morais, secretária nacional de Mulheres do PT, afirmou que o partido tem recebido relatos quase diariamente de candidatas de estados como Rio Grande do Norte, Minas Gerais, São Paulo, Santa Catarina, Pernambuco e Piauí. Ela destacou que as ameaças apresentam grande semelhança, e em alguns casos, foram enviadas pelo mesmo remetente. A dirigente ressaltou que os ataques são impulsionados por grupos que utilizam as redes sociais para disseminar misoginia, racismo e violência política, buscando expor a vida privada das candidatas e criar um ambiente de medo para desestimular a participação feminina na política.

Diante do cenário, a Secretaria de Mulheres do PT passou a oferecer acompanhamento jurídico às candidatas da legenda, além de atuar no ambiente digital e manter diálogo com órgãos responsáveis por investigar ameaças e solicitar medidas protetivas. As mulheres ameaçadas também são incluídas em grupos de WhatsApp para acompanhamento e suporte. Um exemplo citado é o caso de Ana Elisa Santos Silva (PT), candidata a deputada federal em Minas Gerais, que recebeu e-mails racistas com ameaças de morte e estupro, contendo referências a grupos supremacistas brancos e dados pessoais da candidata e de seus familiares.

Combate à violência política de gênero

A violência política de gênero é considerada crime eleitoral desde 2021, com pena prevista de reclusão de um a quatro anos, além de multa. Dos 177 processos registrados pelo TSE em 2026, 63 são da Região Sudeste, 37 da Região Sul, 36 da Região Nordeste, 21 da Região Norte e 20 da Região Centro-Oeste. O Ministério Público Federal (MPF) registrou outros 34 casos neste ano.

Para combater os ataques digitais e manipulações com inteligência artificial, a Justiça Eleitoral lançou novas ferramentas. Entre elas, o Likeness ID, desenvolvido pelo YouTube, auxilia candidatos a identificar vídeos que utilizam suas imagens indevidamente para solicitar a remoção do conteúdo. Outra ferramenta, criada em parceria com a ElevenLabs, visa proteger contra a clonagem de voz, bloqueando preventivamente o uso não autorizado de áudios sintéticos e rastreando conteúdos manipulados. Além disso, o MPF e a Justiça Eleitoral lançaram a campanha “Política é Substantivo Feminino”, com o objetivo de informar e conscientizar a sociedade sobre as diversas formas de violência política contra mulheres no contexto eleitoral.