Uma questão incômoda surge no cenário político brasileiro: por que setores do empresariado, desde grandes grupos até pequenos comerciantes, mantêm o temor em relação a Luiz Inácio Lula da Silva, mesmo após três mandatos de prosperidade econômica para empresas, mas consideram votar em Flávio Bolsonaro? Essa dicotomia não se explica puramente por fatores econômicos, sugerindo que a disputa transcende o crescimento, a inflação e a segurança jurídica.

Os governos Lula foram marcados por lucros bancários expressivos, expansão do agronegócio, aumento da renda e do consumo, e crédito abundante para empresas. Apesar desse cenário favorável e da ausência de rupturas com a propriedade privada, o atual presidente é, em certos círculos empresariais, percebido como uma ameaça. Por outro lado, Flávio Bolsonaro, herdeiro de um movimento que questionou a democracia, atacou urnas eletrônicas e buscou subverter o resultado eleitoral, além de enfrentar acusações como o caso das rachadinhas e ter ligações com milícias, é visto como uma alternativa aceitável. Tal paradoxo sugere que a divergência está enraizada na distribuição de riqueza, no poder dos trabalhadores, na soberania nacional e na definição de quem controla o Estado.

O Temor a Lula e Suas Raízes Históricas

A chegada de Lula à Presidência, em 2003, gerou previsões de fuga de capitais e desordem econômica que nunca se concretizaram. Seus governos preservaram contratos, pagaram dívidas e mantiveram lucros empresariais elevados. No terceiro mandato, medidas como a reforma tributária, a retomada da política industrial e o fomento a programas de infraestrutura e transição energética demonstram uma postura conciliadora. No entanto, o receio persiste. O antilulismo tem raízes mais profundas, remontando a 1989, quando sua origem social, operária e nordestina era apresentada como sinal de inaptidão. Essa desqualificação social, embora não seja o único fator das derrotas eleitorais iniciais, estabeleceu uma hierarquia que o presidente parecia desafiar.

O problema, para uma parcela da elite, não é a erradicação da pobreza em si, mas sim a transformação do pobre em cidadão com renda, direitos e capacidade de negociação. Políticas como a valorização do salário mínimo, a formalização do trabalho doméstico e a expansão universitária alteram as relações sociais e econômicas, gerando resistência. A oposição a medidas como o fim da escala 6x1 ilustra esse conflito, onde os custos para as empresas se contrapõem aos benefícios para os trabalhadores. O receio a Lula, portanto, simboliza a ascensão organizada do trabalho na política, desafiando a ideia de que salários e direitos são definidos exclusivamente pelos proprietários.

A Perspectiva de Flávio Bolsonaro para o Empresariado

As razões declaradas para a oposição empresarial a Lula frequentemente incluem o aumento da dívida pública, juros altos e insegurança jurídica. Contudo, essa narrativa muitas vezes foca na contenção de políticas sociais e salários, raramente abordando a tributação de dividendos, heranças ou a revisão de subsídios. A contradição se manifesta quando os mesmos setores que demandam austeridade também reivindicam crédito subsidiado, proteção comercial e benefícios fiscais. Essa dinâmica revela que o empresariado não busca um Estado minimizado, mas sim um Estado seletivo: forte para proteger contratos e financiar negócios, mas limitado na redistribuição de renda e no fortalecimento dos trabalhadores.

Nesse contexto, Flávio Bolsonaro parece aceitável por sugerir a redução de impostos sobre o capital, o enfraquecimento de regulações, a contenção de direitos trabalhistas e a abertura de novos espaços para a exploração privada. Para o empresariado alinhado ao bolsonarismo, sua proximidade com figuras como Donald Trump não é um problema, e a instabilidade democrática pode ser tolerada se o governo mantiver a propriedade, reprimir movimentos sociais e limitar a capacidade de organização dos trabalhadores. Até mesmo a corrupção, que foi usada para atacar o PT, é relativizada quando se trata de acusações contra a família Bolsonaro, evidenciando que os interesses econômicos e sociais sobrepõem-se a outras considerações.