O Brasil está se consolidando como um polo de inovação na agricultura, com foco em bioinsumos. Em Piracicaba, interior de São Paulo, o SPARCBio (Centro Avançado de Pesquisa sobre Controle Biológico) se destaca no desenvolvimento de um novo modelo de manejo de pragas e doenças, baseado em sustentabilidade e inovação, para a agricultura tropical. As instalações e os avanços do centro foram apresentados durante uma visita organizada pela ApexBrasil.

Fruto de uma parceria entre a Universidade de São Paulo (USP), por meio da ESALQ/USP, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e a Koppert, líder em controle biológico, a iniciativa impulsiona uma agricultura moderna e reconhecida mundialmente. O professor doutor José Roberto Postali Parra, diretor do SPARCBio, enfatizou a estrutura multidisciplinar do centro, que se concentra na descoberta de novos agentes, no desenvolvimento de produtos inovadores e na geração de conhecimento em Manejo Integrado de Pragas (MIP).

Liderança brasileira em controle biológico

As condições de cultivo no Brasil, como o clima, a vasta extensão de terras e a dinâmica de plantio, exigiram que o país desenvolvesse uma ciência de base própria para o controle biológico, conferindo-lhe uma liderança incontestável no setor. Segundo o professor Parra, a agricultura tropical brasileira, com suas características únicas, como campos abertos e múltiplas safras, tornou impossível copiar sistemas de controle biológico de outros países. Ele ressalta a necessidade de tecnologia adaptada às condições locais.

Um marco para o controle biológico no Brasil foi o ano de 2013, com o surgimento da praga Helicoverpa armigera. A falta de inseticidas convencionais eficazes impulsionou o uso de um vírus específico e do microparasitoide Trichogramma pretiosum, com resultados excelentes. Após esse período, o número de bioinsumos registrados no Brasil teve um aumento expressivo. Atualmente, o mercado global de controle biológico cresce entre 15% e 20% ao ano, enquanto o brasileiro avança entre 30% e 35%.

A abordagem brasileira para o controle biológico, desenvolvida em laboratórios e aplicada em larga escala, tem atraído a atenção internacional. Delegações estrangeiras visitam o centro paulista para entender como o Brasil consegue controlar pragas biologicamente em vastas áreas. O diretor do SPARCBio explica que a diferença está na escala e no ambiente de aplicação: enquanto a Europa e os Estados Unidos focam em cultivos indoor ou de alto valor, o Brasil aplica essas soluções em campo aberto, em temperaturas elevadas, em milhões de hectares. Esse sucesso levou a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) a estudar a regulamentação brasileira, e países africanos buscam acordos para implementar legislações similares.

Novas fronteiras e colaboração com a indústria química

Um exemplo notável da tecnologia nacional é o uso de vespas para parasitar ovos de pragas, com liberações feitas até por drones. Este ano, o Trichogramma galloi será liberado em 6 milhões de hectares, um programa sem precedentes em escala global.

Apesar do crescimento do mercado de bioinsumos, os pesquisadores afirmam que a abordagem biológica não visa competir com os defensivos químicos, mas sim complementar e mudar a forma como se enxerga a lavoura. O Dr. Ítalo Delalibera, pesquisador principal da área de microrganismos, explica que os biológicos atuam na saúde da planta, aumentando sua resiliência e tornando-a mais resistente. Ele ressalta que as grandes empresas químicas já estão incorporando bioinsumos em seus portfólios. O professor Parra complementa, defendendo o Manejo Integrado de Pragas (MIP), que combina diferentes métodos para o sucesso agrícola.

Além das culturas, o SPARCBio explora o uso de bioinsumos na agropecuária e no setor veterinário, como o controle de Salmonella em aves, com Bacillus na ração. Contudo, a aplicação dessas tecnologias na pecuária bovina enfrenta desafios regulatórios, pois a legislação veterinária ainda não está totalmente adaptada a essa nova realidade. O centro continua a modernizar sua estrutura, desenvolvendo soluções em larga escala, como dietas artificiais para pragas e pesquisas em automação e inteligência artificial, para viabilizar a produção de inimigos naturais de forma econômica.